JOSÉ MANUEL DA SILVEIRA LOPES – O LENÇO DO PRIMEIRO CURATIVO

 

PRIMEIRO CURATIVO

O lenço assim intitulado integrava as caixas de primeiros socorros (“ambulâncias” como eram designadas na gíria ferroviária) que equiparam durante décadas comboios, estações e demais instalações e serviços ambulatórios ferroviários. Essas caixas, portáteis ou fixas, de dimensão diversa consoante a instalação a equipar, continham instrumentos e produtos apropriados a realização de pequenas intervenções curativas e nalguns casos a intervenções cirúrgicas e amputações.

Só nos anos ostenta do século XX essas “ambulâncias” foram descontinuadas como suporte logístico do serviço ferroviário e recolhidas pelos serviços centrais de Medicina da CP. De facto, somento se reconheceu a sua relativa inutilidade depois de durante décadas (na realidade desde o inicio do serviço ferroviário regular) terem suprido a escassez e acessibilidade de serviços de socorro e de recursos clínicos e hospitalares do país.

As empresas ferroviárias tiveram, de facto, de suprir praticamente todas as necessidades das suas comunidades laborais face a ausência continuada de recursos públicos. Uma dessas necessidades seria a de proporcionar serviços de saúde, tanto gerais como de medicina laboral aos seus empregados e familiares. A CP teve, por isso, de contratar médicos por todo o país e de, designadamente nas localidades de major concentração dos seus trabalhadores, instalar postos médicos e de enfermagem. As “ambulâncias” também serviam como suporte da actividade desse corpo clinico.

A curiosidade do lenço “Primeiro Curativo” é a de ilustrar uma necessidade especifica – proporcionar a qualquer agente informação apropriada quando, em caso de acidente, tivesse de intervir e providenciar um adequado, ainda que primário, nível de cuidados ao sinistrado. 0 próprio lenço tanto ilustra o procedimento a adotar como serve para o executar. E um exemplo, entre muitos outros, de criação de dispositivos e procedimentos que, em diversos níveis da atividade operacional (designadamente na CP, realidade que conheço), permitissem qualificar a intervenção de agentes em muitos casos semianalfabetos ou mesmo analfabetos, atenta a predominância do analfabetismo na população portuguesa ao longo de todo o século XX.

 

José Manuel da Silveira Lopes

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