EM BREVE, mais fotografias, artigos, discursos, vídeos, impacto.
ACTUALIZADO: Intervenção de José Pacheco Pereira.
Muitas centenas de pessoas encheram completamente o Salão Nobre da CM do Porto.
INTERVENÇÃO DE JOSÉ PACHECO PEREIRA
Queria em primeiro lugar saudar todos os presentes, que se deslocaram à CM do Porto, embora tenha a presunção de que não vão perder o seu tempo e, nalguns casos, reverem-se também naquilo que foi a sua obra.
Agradecer ao Presidente da CM Rui Moreira as condições que deu ao Arquivo Ephemera para poder realizar esta exposição, a começar pela importância simbólica do local. Aqui, em frente, várias vezes Sá Carneiro falou aos portuenses.
Depois, queria agradecer aos voluntários do Ephemera, que como sempre pro bono, trabalharam, e muito, para esta exposição, em particular ao Carlos Nuno e à Rita Maltez, mas também a muitos outros que ajudaram a organizar documentos, como a Palmira Lobo ou o Francisco Carvalho, ou a fazer avançar esta exposição, como o Vasco Ribeiro e o António Tavares.
(…)
Não é de todo irrelevante que esta exposição lembre um homem do Porto, na cidade do Porto. É também para mim uma honra como nascido numa velha família do Porto, aqui nado e criado, onde há um palácio com o nome da minha família, que seja a minha terra a depositária desta exposição.
É que ser no Porto e estar no Porto faz parte da identidade desta obra que recordamos em Francisco Sá Carneiro. Há na nossa terra um ar diferente, o ar da “invicta”, cidade irridenta face aos poderes. Cidade escura, dura, como as cidades hanseáticas de Thomas Mann, habitada por gente muito parecida com alguns dos seus personagens, povo liberal que combateu e venceu os absolutistas, terra de Garrett, terra para onde Herculano trouxe na sua fila de carros de bois a memória em risco de se perder dos mosteiros de Coimbra, terra de burgueses, comerciantes que fizeram o Ateneu, e de operários das únicas grandes fábricas fora da Margem Sul, e que fizeram os clubes com nomes da cidade como o Futebol Clube do Porto e nomes das suas fábricas do Boavista e dos Salgueiros, terra onde um busto colocado publicamente, num sítio alto, claro, esteve Karl Marx durante toda a ditadura, terra de republicanos que não esperaram pela implantação da República pelo telégrafo, terra onde se fizeram os dois maiores comícios da oposição à ditadura, em 1949 com Norton de Matos e em 1958 com Humberto Delgado chegado à Estação de S. Bento, e tendo a cidade toda na rua. Na verdade, chamar comício ao que aconteceu em 1958 é um eufemismo.
Esta cidade molda os que aqui nascem, molda-os na liberdade e na sua defesa, molda-os pelo valor do trabalho, molda-os por uma certa forma de teimosia, de firmeza. Um dos homens a quem esta exposição é dedicada, Miguel Veiga, era feito dessa massa, neste caso moldada num exemplar muito especial, aquilo a que os ingleses chamam um “character”, irónico, imaginativo, combativo quando era preciso, culto e ilustrado, com um amor total à liberdade. Percebe-se também o apelo de Sá Carneiro quando se olha para os homens que ele mobilizou num projecto comum.
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Nunca conheci Sá Carneiro pessoalmente, mas frequentávamos um mesmo lugar e lá o encontrei algumas vezes, a Livraria Divulgação, depois Leitura, depois nada, a não ser uma barbearia e hoje um restaurante indiano. Se há local no Porto que merece uma placa é essa esquina da Rua de Ceuta, aliás a Rua de Ceuta toda.
A ideia desta exposição, por mim sugerida, começou a ser posta em prática num jantar de militantes do PSD realizado no Porto, e foi abraçada com entusiasmo por alguns deles que fizeram o trabalho preparatório.
Depois, há a história do espólio que a permitiu, salvo por Conceição Monteiro, uma fundadora do PPD, secretária pessoal de Sá Carneiro, adjunta do Primeiro-ministro, que acompanhou toda a vida do pós 25 de Abril, com enorme dedicação e lealdade. Foi por isso que Francisco Sá Carneiro lhe confiou o seu espólio e, foi porque o fez, que se salvou o conjunto documental mais importante para a história do PPD e do PSD, ou seja do principal partido criado depois do 25 de Abril, em contraste com o muito do que se perdeu, quase todo o arquivo do partido. É por isso mesmo que esta exposição é igualmente dedicada a Conceição Monteiro, que mesmo imediatamente antes do início da montagem desta exposição ofereceu mais um conjunto de fotografias, documentos, manuscritos e vos envia uma saudação a todos.
Um dos aspectos mais relevantes desta exposição são os documentos novos e inéditos que, ou permitem conhecer aspectos desconhecidos da biografia de Sá Carneiro, ou permitem esclarecer e aprofundar linhas de intervenção que ou estavam esquecidas, ou menorizadas, ou pura simplesmente ignoradas pelo seu incómodo para os tempos actuais.
Os aspectos novos mais relevantes, para que a partir de agora há forte evidência documental, incluem o papel de Sá Carneiro na criação da Cooperativa Confronto, a iniciativa da Ala Liberal de apresentar uma candidatura de Spínola a PR, as influências políticas e ideológicas no Programa original do PPD, as tentativas de recrutar na génese do partido elementos que vinham da oposição anti-salazarista não comunista, a importância dada à entrada na Internacional Socialista, todo o período do PREC e a criação de um serviço de informações do PPD, detalhes das cisões de 1976 a 1979, o processo de criação da AD, e As iniciativas controversas de Sá Carneiro como a entrega de terras em 1980, e muito mais.
Mas há muitas outras lições que vêm da interpretação de literalmente milhares de documentos do Espólio de Sá Carneiro e dos outros espólios existentes no Arquivo Ephemera, como o de Nuno Rodrigues dos Santos, o de Vitor Crespo, o de Mário Brochado Coelho, e muitos outros da colecção geral do Ephemera.
A primeira lição para os dias de hoje é que, percorrendo estes documentos, é evidente o ambiente de liberdade, controvérsia, discussão, que era o quotidiano do PPD e do PSD no tempo de Sá Carneiro. Não era fácil ser líder de um partido destes, e Sá Carneiro entrou e saiu, discordou e não se calou como militante que se declarou de base. Precisamos e muito deste tipo de ambiente de crítica e análise, sem preocupações de unanimismo e sem estar sempre a olhar para o lado, para a escada da própria carreira.
Por outro lado, estes mesmos documentos revelam a importância dada ao conhecimento, ao estudo, à análise, por gente qualificada, como um fluxo permanente de opiniões sustentadas, que serviam quer o partido e a sua direcção, quer o partido no governo. Não havia medo nem preconceito de, no exercício das funções governativas, ouvir o partido, porque quem estava no poder não era um gabinete técnico, mas um partido político com as suas referências ideológicas. A separação entre a acção governativa e o partido, como se esta relação fosse um anátema, empobreceu quer os governos, quer os partidos remetidos quase só para a gestão de carreiras e tarefas eleitorais.
Do mesmo modo, é relevante a consistência política do pensamento e da acção de Sá Carneiro, assente nos três pilares fundamentais do seu pensamento: o liberalismo político, o personalismo cristão, e a social-democracia. Quando se vê as diferentes versões dos seus discursos, muitas vezes, uma manuscrita, depois outra dactilografada com anotações manuscritas, a versão que levava para ler na Assembleia, e as mudanças de última hora que fazia, vê-se que há sempre uma valorização do pendor ideológico.
O PPD nasceu com grande consistência ideológica e política, na ala do centro-esquerda, da social-democracia ao modelo nórdico e alemão, mas a acção política do partido ia mais longe para um “programa não escrito” que incluía também o centro-direita. Sá Carneiro tinha consciência disso, de que a resistência ao PREC e ao PCP e extrema-esquerda colocava o partido mais à direita do que o seu programa escrito. Mas Sá Carneiro foi sempre explícito em não pretender impregnar os fundamentos ideológicos do partido, daí a sua explícita afirmação de que o PPD não só não era um partido de direita como, mesmo quando faziam alianças como a AD original de 1979-80, tinha a preocupação de incluir os Reformadores, e dizer várias vezes que o PSD não queria encabeçar uma frente de direita.
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Os seis anos de acção política de Sá Carneiro depois do 25 de Abril foram anos em que houve sempre liberdade porque alguém a conquistou e depois a defendeu, mas não eram ainda anos de democracia. O tema desta exposição é Sá Carneiro enquanto um dos “construtores da democracia”. Este movimento de construção tem tido também, nestes anos do 50º aniversário do 25 de Abril, a celebração de Mário Soares, mais que justa e devida, mas devemos também, por rigor histórico colocar Sá Carneiro nessa construção.
Ela materializou-se em vários aspectos:
1) A criação do primeiro grande partido em liberdade. O PPD, depois PSD, que foi o grande instrumento de Sá Carneiro.
2) A preocupação com uma estratégia e táctica coerente, que autonomizasse o partido e o utilizasse como instrumento para combater e eliminar os últimos traços da intervenção dos militares na vida política, de génese revolucionária, mas que atrasavam a consolidação de um sistema puramente democrático, pelo qual lutou contra o PS, como também colaborou nesta área, contra o Conselho da Revolução, contra o Presidente Eanes.
3) A vitória da AD, pela primeira vez uma verdadeira alternância de poder nascida das urnas, foi um passo fundamental na construção da democracia.
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Esta exposição é rigorosa no plano histórico, assente em múltiplos documentos, muitos assinados e manuscritos por Sá Carneiro. Do ponto de vista histórico, não há outro Sá Carneiro diferente do que aqui está. Pode-se interpretar muito da sua biografia de forma diversa e controversa mas, de novo, a evidência documental, é a que está aqui, escolhida no meio de muitos milhares de páginas originais.
Mas o Sá Carneiro que está aqui honra-nos a todos, à cidade do Porto, à luta que nos leva de liberdade de 1974 até à que, já nos anos a seguir à sua morte, em particular em meados de 1980, acabou por consolidar o fim do Pacto MFA-Partidos, o fim da tutela constitucional dos militares e, por fim, o primeiro presidente civil.
Conhecer a sua obra é vital para os dias de hoje, quando a democracia sofre uma erosão considerável. Se for conhecida, mais do que um retrato pendurado em sedes, ou estátuas nas ruas, Francisco Sá Carneiro serve hoje pelo seu combate de sempre pela liberdade e democracia.
Disse.
NOTÍCIAS E ARTIGOS
RTP / ANTENA 1
Exposição sobre Sá Carneiro inaugurada no Porto
“Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia” é o nome de uma exposição agora inaugurada na Câmara do Porto. Mostra documentos inéditos, que ajudam a perceber melhor a base ideológica de Sá Carneiro e a importância do PSD na História da democracia portuguesa.
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