IMPACTO DAS EXPOSIÇÕES E DEBATES DO ARQUIVO EPHEMERA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

EM CONSTRUÇÃO

BARREIRO

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cultura

Novo espaço cultural no Barreiro estreia-se com exposição sobre guerra e mentira

O Armazém 150 ocupa o Parque Empresarial e estreia-se com cerca de 200 peças do Arquivo Ephemera e uma instalação interativa.

A abertura acontece no âmbito das Jornadas Europeias do Património 2026 e integra a programação de “Barreiro, A Cidade dos Arquivos”, que ao longo do mesmo dia propõe visitas, exposições e encontros em vários espaços ligados à memória documental, industrial, artística e social do concelho.

O novo Armazém 150 surge como a primeira fase de instalação de um equipamento que irá assumir funções de polo de dinamização cultural e artística no Parque Empresarial do Barreiro. A escolha do espaço também tem leitura simbólica: num território marcado pela memória industrial, o antigo contexto produtivo passa agora a acolher arquivo, arte contemporânea, tecnologia, som, imagem e reflexão histórica.

Cerca de 200 peças mostram a guerra da propaganda

Uma das exposições de abertura é “A Outra Guerra — Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”, do Arquivo Ephemera. A mostra reúne cerca de 200 peças de um núcleo de aproximadamente 600 documentos conservados pelo arquivo e apresenta livros, folhetos, cartazes e outros materiais usados para disputar a leitura pública do conflito.

A exposição olha para a Segunda Guerra Mundial através de uma frente menos visível, mas decisiva: a propaganda. Entre 1939 e 1945, os países envolvidos recorreram a diferentes meios para contar a sua versão da guerra, influenciar perceções, moldar comportamentos e interferir na disposição das sociedades para o combate, a resistência ou a rendição.

Portugal surge como caso relevante, pela circulação de propaganda em português produzida por vários beligerantes. O percurso mostra técnicas, temas, alvos e estratégias usados para tentar conquistar o que a própria exposição descreve como a “conquista das almas”. A rádio, o cinema, a banda desenhada, a caricatura, os materiais impressos e as coreografias de comícios fazem parte desse universo.

Ainda durante a preparação da exposição, José Pacheco Pereira explicou à New in Barreiro que “A Outra Guerra” mostra a Segunda Guerra Mundial a partir de uma frente menos visível, mas decisiva: “a guerra da propaganda”. Esta dimensão do conflito era total, mundial e cada vez mais dependente das tecnologias, embora permanecesse diretamente ligada à guerra das armas.

O objetivo era aquilo que Pacheco Pereira descreve como a “conquista das almas”: criar perceções, moldar comportamentos e influenciar a disposição das nações para o combate, a resistência ou a rendição.

A propaganda interferia no confronto político entre regimes e recorria a mecanismos clássicos da mentira, como a falsidade, a sugestão de falsidade e a omissão da verdade. Rádio, cinema, banda desenhada, caricatura e comícios encenados tornaram-se, durante a Segunda Guerra Mundial, ferramentas centrais dessa disputa.

A frase que atravessa a proposta — “Na guerra a primeira vítima é a verdade” — ajuda a enquadrar uma exposição que parte do passado, mas toca diretamente debates contemporâneos sobre manipulação da informação, omissão, fabricação de consensos e disputa pela memória.

Luz, som e vigilância numa instalação reativa

A segunda proposta chama-se “O Som é Silêncio / The Sound is Silence” e foi concebida para o espaço industrial do Armazém 150. A instalação audiovisual e tecnológica tem curadoria de Paula Melâneo e é reativa ao visitante: a aproximação humana altera luz, convoca som, ruído, respiração, batimentos, vozes, palavras e silêncio.

A obra trabalha a partir de uma condição simples: entrar no escuro e ser reconhecido por um espaço cuja lógica permanece instável. A resposta pode surgir de imediato, aparecer com atraso, deslocar-se para outro ponto ou ser recusada. O visitante percebe que a sua presença tem consequências, mas a instalação evita transformar-se numa interface previsível.

No centro da obra está uma constelação de referências literárias, cinematográficas, históricas e sonoras. Fragmentos, ecos, vozes, frases, ritmos de propaganda, ruídos e textos surgem sem legenda, autoria ou cronologia fixa. A experiência cruza presença, vigilância, controlo, comportamento, linguagem e memória.

O 18—25 Research Studio foi responsável pela conceção de parte dos conteúdos apresentados no pavilhão português na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025. A Space Collectors desenhou o projeto expositivo da representação portuguesa na Bienal de Arte de Veneza de 2026. No Barreiro, os dois projetos encontram-se numa instalação criada para dialogar com a escala e a atmosfera industrial do Armazém 150.

A programação das Jornadas Europeias do Património começa às 9 horas, junto ao Mausoléu de Alfredo da Silva, ponto de encontro para as visitas guiadas à Cidade dos Arquivos. O percurso passa pelo Arquivo Histórico da Fundação Amélia de Mello, Colectivo SPA, PADA Studios, Museu Industrial, Espaço Memória, Clube Chapas, Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra e Arquivo Ephemera. À tarde, a StartUp Barreiro recebe, às 15h30, a exposição “Dia D”, também com curadoria do Arquivo Ephemera / Pacheco Pereira.

No Armazém 150, as inaugurações das exposições estão marcadas para as 17h30. As duas exposições ficam patentes ao público até ao final do ano, às terças-feiras, sábados e domingos. A entrada é gratuita para a comunidade estudantil e académica e para o público em geral.


ROSTOS

‘Armazém 150’ no Parque Empresarial do BarreiroIrá transformar-se num “polo cultural”
. afirma Sara Oliveira Ribeiro, presidente da Arco Ribeirinho Sul

No Parque Empresarial do Barreiro, no âmbito da Jornadas Europeias do Património 2026, foi inaugurado o ‘Armazém 150’, o qual, segundo Sara Oliveira Ribeiro, presidente do Conselho de Administração da Arco Ribeirinho Sul é «um novo espaço» que tem por objectivo criar «um polo cultural» ao serviço da «Cidade dos Arquivos» e da comunidade barreirense.

4 min de leitura

‘Armazém 150’ no Parque Empresarial do Barreiro Irá transformar-se num “polo cultural” . afirma Sara Oliveira Ribeiro, presidente da Arco Ribeirinho Sul

Por Jornal Rostos

A sessão inaugural contou com a presença de Frederico Rosa, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, e Sara Ferreira, vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, responsável pela Área Cultural.

‘Armazém 150’ irá transformar-se num “polo cultural”

Ao Sara Oliveira Ribeiro, referiu que o ‘Armazém 150’, é “um novo espaço que a Arco Ribeirinho Sul entendeu abrir este ano ao público” que vai estar ao dispor da ‘Cidade dos Arquivos do Barreiro’, de todos os clientes do Parque Empresarial, da Câmara e da comunidade.

A presidente do Conselho de Administração da Arco Ribeirinho Sul, sublinhou que o ‘Armazém 150’ irá transformar-se num “polo cultural”, um espaço de debates, de exposições e outras iniciativas.

Sara Oliveira Ribeiro salientou que o espaço inaugurado marca o “momento de abertura”, mas, em breve será aberta “uma nova ala”.

Na sua intervenção referiu que a abertura do ‘Armazém 150”, fica assinalada com a abertura de duas exposições a Exposição da Ephemera, de José Pacheco Pereira, com  o tema “A Outra Guerra, Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”, e, a instalação “O Som é Silêncio”,  da 18—25 18—25 Research Studio, uma presença de referência mundial em Portugal,

Uma exposição que é importante ver nestes tempos

José Pacheco Pereira, da Ephemera, agradeceu à Arco Ribeirinho Sul a cedência do espaço, valorizou o facto de a exposição ser realizada num espaço industrial e afirmou que, esta, é “uma exposição que não era fácil fazer noutro espaço”.

“Uma exposição que é importante ver nestes tempos, marcado por alguma obscuridade que vivemos nos dias de hoje”, referiu o historiador.

José Pacheco Pereira, na sua intervenção, saudou os parceiros da «Cidade dos Arquivos» que salienta é “uma experiência única no país”, também agradeceu à Câmara Municipal do Barreiro que “nos tutela a todos, por nos acompanhar, por nos apoiar e permitir a realização de uma parte importante do que é a Cidade dos Arquivos”.

A guerra da propaganda

A exposição «A Outra Guerra, Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial», de 1945, composta por 16 mesas, muitas imagens e muito texto, segundo José Pacheco Pereira, “há duas razões para considerar esta exposição de completa actualidade”, por um lado “o clima de guerra que se vive na europa”, e, por outro lado, “a guerra, numa dimensão cada vez mais ‘moderna’, a guerra da propaganda”.

História da europa marcada por milhões de morte

José Pacheco Pereira salientou que, a exposição “nos dias de hoje é importante para termos noção, não só da estética, mas também da história da guerra”, proporciona “um bom retrato da história da europa num tempo marcado por milhões de mortes”

O historiador recordou que a União Soviética foi o país que mais mortes teve na segunda guerra mundial, foram 25 milhões.

Pacheco Pereira, alertou para o facto de não existir na exposição documentação soviética, porque – “não havia propaganda, em Portugal, da União Soviética. A censura não o permitia”.

Aproximação humana altera a luz e convoca som

“O Som é Silêncio”, do 18—25 Research Studio, com produção da Space Collectors é uma instalação audiovisual e tecnológica, reativa à presença do visitante. Foi concebida especificamente para o espaço industrial do Armazém 150.

«É uma instalação reactiva construída a partir de uma condição simples: entrar no escuro e ser reconhecido por um espaço cuja lógica nunca se revela por completo. A aproximação humana altera a luz e convoca som, ruído, respiração, batimentos, vozes, palavras e silêncio», foi referido pelo Curador da Instalação.

«Luz e som, voz e sombra tornam-se linguagem. O sistema combina-os, transforma-os em signos. A presença do visitante não é apenas detetada: é traduzida, interpretada, devolvida como experiência”, acrescentou.

Patentes ao público no ‘Armazém 150’ até ao final do ano

As exposições estarão patentes ao público, no ‘Armazém 150’, até ao final do ano, todas as terças-feiras, sábados e domingos e a entrada é gratuita para a comunidade estudantil e académica e para o público em geral.

As duas exposições que, como referido, marcam a primeira fase de instalação do Armazém 150, pretende ser um equipamento com funções de polo de dinamização cultural e artística no Parque Empresarial do Barreiro da Arco Ribeirinho Sul.

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Marta Sousa Pereira

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DIÁRIO DO DISTRITO

José Pacheco Pereira guia visita a exposição sobre propaganda da Segunda Guerra Mundial no Barreiro

Diário do DistritoDiário do Distrito

05 Outubro 2026 14:10

José Pacheco Pereira vai orientar, na próxima terça-feira, 6 de outubro, uma visita guiada à exposição «A Outra Guerra – Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial», no Barreiro. A iniciativa está marcada para as 16h00, no Armazém 150.

A exposição, promovida pelo Arquivo Ephemera, aborda a propaganda produzida em língua portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, a mostra integra a atividade desenvolvida pelo arquivo fundado por José Pacheco Pereira na preservação e divulgação de documentação histórica e política.

Além da visita guiada de terça-feira, a exposição pode ser visitada aos sábados e domingos, entre as 10h00 e as 18h00. No entanto, o Ephemera alerta que a abertura regular está limitada às terças-feiras e ao fim de semana.

A organização esclareceu, aliás, que alguns visitantes se têm deslocado ao espaço noutros dias e encontram o local encerrado. Por isso, reforçou publicamente os horários de funcionamento da exposição.

Ephemera mantém presença no Barreiro

Entretanto, a iniciativa surge numa altura em que o Arquivo Ephemera tem reforçado a sua presença no Barreiro. Recentemente, a associação e a Câmara Municipal assinaram uma revisão do protocolo de colaboração entre as duas entidades, com o objetivo de aprofundar a atividade cultural do arquivo no concelho.

Por outro lado, o Ephemera reúne documentação relacionada com a história política, social e cultural contemporânea portuguesa. Entre os materiais preservados estão cartazes, jornais, panfletos, fotografias, correspondência e outros documentos.


SIC NOTÍCIAS

Cultura

“O alvo são os portugueses”: exposição revela propaganda em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial

A exposição pode ser visitada gratuitamente no Armazém 150, na zona industrial do Barreiro, às terças-feiras, sábados e domingos, até ao final do ano.

A exposição “A Outra Guerra – Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”, no Barreiro, revela as estratégias e os argumentos de diversos países para contar a sua versão do conflito.

Trata-se de uma mostra desenvolvida pelo Arquivo Ephemera, com a curadoria do historiador e comentador José Pacheco Pereira, a partir de um acervo que abrange cerca de 600 espécimes originais com propaganda alemã, inglesa e americana, tudo em português.

Em declarações à agência Lusa, José Pacheco Pereira explicou que a mostra, patente até ao final do ano no armazém 150, na zona industrial do Barreiro, no distrito de Setúbal, dá a conhecer a propaganda quer civil quer militar, “dando uma ideia do que foram aqueles anos 1940”.

“O alvo são os portugueses”

“E tudo isto era dirigido aos portugueses. O que esta exposição tem de particular é o alvo e o alvo são os portugueses, primeiro porque era um país neutral, depois porque era um país cujo regime era suposto ter simpatias pela Alemanha, mas não tinha tantas como se presume”, disse.

Pacheco Pereira recorda que Salazar era muito conservador e não gostava do paganismo alemão, estando por isso mais próximo do fascismo italiano.

“Uma das vantagens de fazer uma exposição destas é que as pessoas percebem que as coisas são mais complexas do que o ‘Eixo versus Aliados'”, referiu, adiantando que o facto de todos estes materiais agora exibidos serem em português revela que houve um enorme esforço de propaganda em Portugal.

O caso português é um caso típico de todas as técnicas de propaganda usadas pelas partes beligerantes, com exceção da União Soviética devido à censura, e a exposição dá a conhecer através de livros, folhetos, cartazes e materiais diversos, as estratégias e os argumentos usados.

Questionado sobre a importância de uma exposição sobre propaganda nos dias de hoje, Pacheco Pereira respondeu: “Tudo, porque nós estamos num período negro da nossa história e muito parecido ao período dos anos 1930 e 40”.

“Não é igual, a história nunca se repete, mas é parecido. O que é que tem de parecido? A desvalorização da democracia, a ideia de que aquilo que verdadeiramente pode ajudar as populações é a força e o poder, uma grande vingança histórica”, explicou.

Pacheco Pereira referiu que, neste contexto, o adversário é sempre apresentado de forma pejorativa, tal como hoje acontece nas redes sociais, espaço onde advoga existir uma desvalorização do saber, o favorecimento do confronto e a perda da referência social, com as escolas a perder terreno.

Em complemento à exposição “A Outra Guerra — Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial” é também hoje inaugurada uma instalação reativa ao visitante intitulada “O som é silêncio”, do 18—25 Research Studio, com produção da Space Collectors.

Concebida especificamente para o espaço industrial do Armazém 150, a instalação, da autoria de Filipe Alves e Luca Martinucci, terá a temática da “A Outra Guerra — Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial” e foi inspirada por referências literárias, cinematográficas, históricas e sonoras, cruzando luz, som, movimento e linguagem.

“O otimismo falseado pela propaganda foi o nosso ponto de partida para começar a trabalhar num arquivo de memória que possa afluir durante a visita. Cada pessoa terá uma experiencia diferente. A resposta das três máquinas que construímos será desencadeada por cada visitante dependendo do seu movimento”, explicou Luca Martinucci.

A pré-abertura do Armazém 150, no parque industrial do Barreiro, e a inauguração simultânea das duas exposições, desenvolve-se no âmbito das Jornadas Europeias do Património de 2026, e envolve todos os arquivos e parceiros culturais que fazem parte do projeto Cidade dos Arquivos, que se juntam neste novo espaço da Arco Ribeirinho Sul.

As exposições estarão patentes ao público até ao final do ano, todas as terças-feiras, sábados e domingos e a entrada é gratuita.

Texto: Lusa

 

 


VIANA

NOTÍCIAS DE VIANA

“Viana à Mesa”: uma viagem pela memória gastronómica de Viana do Castelo entre 1920 e 1970

Muito além da mera necessidade de nutrição, a alimentação tem acompanhado a história da humanidade, refletindo os comportamentos, os hábitos e as transformações sociais de cada época. O que se come, a forma como se come e os espaços escolhidos para o fazer revelam muito mais do que simples preferências alimentares, permitindo compreender diferentes modos de vida, relações sociais e mudanças culturais.

Catarina Faria

6 Out. 20264 mins

Também os restaurantes, cafés, mercados e outros espaços ligados à alimentação assumem um papel importante nesta memória coletiva, enquanto lugares de encontro, convívio e partilha por onde passaram gerações de pessoas. Preservar esta memória é, por isso, preservar, também, uma parte da identidade e da história de uma comunidade.

Foi a partir desta perspetiva que o Núcleo de Viana do Castelo da Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira desenvolveu uma recolha de informação sobre a alimentação na região, entre as décadas de 1920 e 1970. A iniciativa procura recuperar não apenas receitas e hábitos alimentares, mas também os espaços, os objetos e as histórias que marcaram a relação dos vianenses com a alimentação ao longo do século XX.

Segundo a Ephemera, “a comida, coisa EPHEMERA, foi tornada permanente na sociedade, pela cultura, fundada nos hábitos e na forma de pensar”, salientando que “o prato à nossa frente carrega milhares de anos de evolução, simbolismo e história”. Entre os pontos de partida da investigação esteve, ainda, a ideia de que “ao longo dos séculos, o que comemos, como cozinhamos e como comemos passou a definir a nossa classe social, o nosso género, a nossa religião e a nossa identidade nacional e mesmo regional”.

A ideia para a exposição “Viana à Mesa 1920-1970”, patente nos Antigos Paços do Concelho, surgiu a partir da doação do espólio do tenente-coronel Tristão Bacelar, feita pela filha, Margarida Bacelar. Também governador civil, Tristão Bacelar deixou um conjunto de documentos que permitiu recuperar diferentes aspetos da vida social de Viana do Castelo, nomeadamente fotografias, discursos e ementas associadas a inaugurações e outros acontecimentos realizados na cidade, sobretudo durante os anos 1960.

Segundo Isabel Campos, membro do Núcleo de Viana do Castelo e uma das responsáveis pela organização da exposição, “foi a partir desse espólio que se teve a ideia desta exposição que finalmente foi feita”.

Entre os materiais encontrados destacam-se as ementas, que permitem conhecer não só os alimentos e pratos servidos, mas, também, os espaços de sociabilidade da época. “Quando se inaugurava, por exemplo, os Correios ou a luz, nos anos sessenta, faz parte do espólio a fotografia, o discurso e a ementa, que era ou da Brasileira ou da Paris, de um lanche”, explicou Isabel Campos.

A investigação foi, entretanto, além deste espólio, recorrendo também a jornais, arquivos, bibliotecas e coleções particulares. A exposição reúne, assim, diferentes vestígios de uma época, permitindo olhar para a alimentação como uma porta de entrada para compreender a vida quotidiana da cidade.

Para Isabel Campos, a preservação destes materiais é essencial, sobretudo porque muitos deles poderiam facilmente ter sido descartados. “Tudo o que aqui está é precisamente para que se guarde, porque nós conseguimos fazer grandes coisas com aquilo que as pessoas guardam, em vez de deitar ao lixo”, afirmou.

Também, José Pacheco Pereira, fundador da Ephemera, destacou a dimensão coletiva desta memória: “Não só há receitas que são características de uma determinada terra, como toda a panóplia de restaurantes, casas de pasto e cafés são igualmente aquilo por onde passaram dezenas, senão centenas de milhares de pessoas”.

Para o fundador da Ephemera, é precisamente essa dimensão que atribui relevância à exposição, porque a “exposição não é apenas interessante pelos objetos que estão ali colocados na parede e até essas coisas, como a dentadura, mas há mais alguma coisa, com os nomes dos doces que eu nunca ouvi falar e está-se sempre a aprender”, destacou.

A importância da exposição enquanto elemento de preservação da memória coletiva foi, também, sublinhada pelo vereador da Educação, Ciência e Conhecimento e Cultura, Manuel Vitorino: “A partir da gastronomia, do comer em Viana, podemos entrar aqui em dimensões culturais muito importantes”.

O autarca considera, aliás, que os elementos reunidos na exposição permitem recuar, ainda, mais na história da cidade, defendendo que “o trigo da Praça da República nos pode levar a tempos mais recuados, ao tempo dos Descobrimentos”.

 

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