CENTRO INTERPRETATIVO DO ESTADO NOVO – REGIME E RESISTÊNCIA – CONTROVÉRSIAS

EM CONSTRUÇÃO

ASSOCIAÇÃO DE HISTÓRIA DO ESTADO NOVO


 

LUIS FARINHA / resposta de IRENE PIMENTEL

Luís Farinha, no seu portal do facebook
“NÃO SE QUER MUSEU SALAZAR, MAS TAMBÉM NÃO SE QUER UM ESPAÇO ONDE SE DIGA MAL DA FIGURA PRINCIPAL.NEM UMA COISA NEM OUTRA “
Isto disse a responsável do Município de Santa Comba Dão, a propósito da inauguração do célebre «Centro de Interpretação do Estado Novo. Regime e Resistência».
Está definido o «modus operandi» do promotor. A História do Estado Novo contada aos homens de boa vontade.
E a primeira exposição (de inauguração da Cantina) é sobre a censura à imprensa? Não se vê como vai a Censura ser interpretada senão como um malefício. Como um forte malefício social e político. E o seu responsável principal como alguém que comprometeu a modernidade do país com a sua utopia reacionária.
Como diabo se pode dizer isto (e todo o resto que sabemos) sem «dizer mal» do Ditador?
Quanto partilhamos a defesa da democracia pela qual lutamos durante décadas, como aceitar como boa a Ditadura que foi imposta ao país por Oliveira Salazar e pelos salazaristas?
Não está a maior contradição no nome proposto? Resistência! Então resiste-se como?
CONTINUO A PENSAR O MESMO QUE PENSAVA HÁ UM ANO, quando foi anunciado o «Centro de Interpretação do Estado Novo», depois adornado com o sub-título de «regime e resistência»:
NORMALIZAR A MEMÓRIA DA DITADURA OU PROMOVER O «TURISMO NEGRO?»
Os fins não podem ser mais nobres: recolher memórias do regime ditatorial e da resistência, aprofundar o conhecimento histórico sobre os 48 anos de Ditadura através de «estudo e análise», envolver a comunidade nessa recolha e estudo, criando na «Escola Cantina Salazar» (Vimieiro) um lugar de memória democrática.
Dito desta forma, a Presidência da Câmara de Santa Comba Dão, a EPHEMERA e o seu coordenador (e fundador) José Pacheco Pereira têm, muito provavelmente o apoio da comunidade local. E imagino, também, de muitos historiadores.
Anuncia-se a constituição de uma Comissão Científica de peso, sobre a qual não tenho a menor dúvida sobre a seriedade, honestidade intelectual e valor científico dos seus membros: José Pacheco Pereira, Luís Reis Torgal, Irene Pimentel, Maria Inácia Rezola, Eduardo Marçal Grilo. Julgo que os anima as melhores intenções: conseguir «dessacralizar» a figura do Ditador – diabolizada por uns e escolhida por outros como «o grande estadista português do séc. XX». Um «fantasma» na expressão de Pacheco Pereira (embora aqui ele se esteja a referir a Ditadura).
Na verdade, a Ditadura não é sinónimo de «Salazar». Pacheco Pereira tem razão. O problema, é que para a grande maioria do povo português a Ditadura é Salazar. O problema é que Salazar nasceu no Vimieiro e o problema é que o «Centro Interpretativo do Estado Novo» vai surgir na «Escola Cantina Salazar» no Vimieiro. Será assim tão evidente que, por um gesto de magia educativa (e científica) vamos conseguir desmistificar no Vimieiro o «fantasma» de Salazar, coisa que ainda está longe de estar feito em todos os outros sítios onde foi tentado? E já houve muitos outros sítios…
Logo no Vimieiro na «Escola Cantina Salazar»? Por que não um Centro Interpretativo do Estado Novo em Coimbra, cidade onde se formou e de onde partiu Oliveira Salazar para governar o país? Podia fazer sentido.
O sentido será então o de descentralizar as instâncias de conhecimento e divulgação? Voltamos ao mesmo: porquê no Vimeiro, na «Escola Cantina Salazar»? Só porque Salazar aí nasceu? Mas então a solução é perversa, porque os locais de memória desta natureza sempre se fizeram para enaltecer a figura, o local e a sua importância no todo nacional ou internacional. Ali ao lado está Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas, afirma Pacheco Pereira. E que sentido lhe damos?
Acredita Pacheco Pereira na descentralização e na profusão do pensamento crítico local ao ponto de pensar que é ali que vai conseguir «dessacralizar» a historiografia tradicional e o senso comum desinformado? Já não falo nos «crentes» que passam nostalgicamente em frente da casa do Ditador ou no cemitério, ali ao lado.
Em Itália, os nossos colegas italianos, lamentam nunca ter conseguido contar a história de Mussolini e do fascismo italiano nas «Casas do Povo», edifícios grandiosos que toda a Itália possui e que estão, normalmente às moscas.
É possível que o Município de Santa Comba Dão, em parceria com a EPHEMERA, consiga instalar um Centro Interpretativo da Ditadura na «Escola Cantina Salazar» do Vimieiro. Digo, é possível e é até provável.
Subsistem para mim muitas dúvidas, e a mais importante é: como vão os promotores conseguir separar este propósito científico e cívico do local, da Cantina, do «turismo cultural»(?) feito em redor da casa do Ditador em ruínas, do cemitério, em suma, do «turismo negro» que tal tema suscita? Bem sei que há muitos temas tabus em Portugal, sobre os quais é proibido falar e com os quais convivemos sem questionamento, na base do mais elementar pragmatismo. Turismo cultural, diz-se, com grande interesse turístico, social e económico.
Ficam os propósitos. Claros! Mas subsistem as dúvidas. Porque não em Coimbra, ali ao lado?
IRENE PIMENTEL
A minha resposta no meu portal
FARTA DOS “DONOS DISTO TUDO” NA NARRATIVA HISTÓRICA
1. Estamos provavelmente a cair no abismo da repressão e até da ditadura, mas o que interessa ao PCP e a outros “compagnons” ou não, é criticar o facto de a Ephemera, José Pacheco Pereira e outros historiadores e investigadores, entre os quais me encontro quererem fazer da escola-casa Salazar um centro interpretativo, onde a primeira exposição é sobre a Censura!!!!
2. Acham então que é para enaltecer Salazar!!!!!
3. Além do mais é insulto que nos fazem. Pessoalmente já mostrei de que forma estudei e divulguei o que foi a PIDE/DGS.
4. Já agora, publico aqui o comentário que deixei, hoje dia 25/10, no portal de um dos críticos, Luís Manuel Farinha:
«a. portanto, que se deixe aos salazaristas, neo-fascistas e neo-nazis a casa-escola salazar. É isso?!
além de se insultar historiadores que tudo têm feito para divulgar o que foi o Estado Novo e o regime de Salazar!!! Penso que os críticos, como o PCP, estão a errar no alvo a abater. Não seria a primeira vez.
E, desculpa, Luís Manuel Farinha, mas argumentar com o que poderá acontecer à casa salazar, quando Pacheco Pereira e nós despareceremos é uma falácia. O que acontecerá(ia) com os museus de Aljube e Peniche quando a extrema-direita hegemonizar o regime português?
Então, hoje não se faz nada?!
Já agora aproveito para lembrar que, no âmbito do NAM e enquanto historiadora (nomeadamente ao estudar a PIDE/DGS), sou das que conseguiu que o Aljube se tornasse num museu da repressão e da resistência e sou autora da primeira exposição sobre o Aljube. Combati também no sentido de Peniche ser museu nacional, em vez de um hotel de charme. Claro que tive o “prémio” por isso!!!! No Aljube, tudo fizeram à minha revelia e, por isso, saí, da Comissão científica. Ah, e durante os anos da direcção de Rita Rato, com cuja nomeação não concordei, feita à revelia de um concurso onde concorreram dezenas de historiadores e historiadoras, não fui convidada para nada. Quanto a Peniche, cuja narrativa é exclusivamente do PCP, não me convidaram para nada desde a sua criação. Estou bastante farta disto tudo!” E FARTA DOS “DONOS DISTO TUDO” NA NARRATIVA HISTÓRICA.

PCP

Nota do Gabinete de Imprensa do PCP

Não à reabilitação do fascismo

O PCP alerta para a abertura, no próximo dia 23 de Outubro, do denominado «Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência», instalado na “Escola-Cantina Salazar” em Santa Comba Dão, que constituirá mais um elemento no processo de branqueamento do regime fascista português e é uma afronta a todos os que se identificam com o 25 de Abril.

Na sequência das tentativas – sempre derrotadas – de abrir um “museu Salazar”, promovidas pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão em anteriores maiorias PS e, agora, com maioria PSD, a abertura deste equipamento não pode deixar de merecer o repúdio de todos os democratas. Não se trata de analisar os conteúdos da exposição a inaugurar ou de avaliar a equipa científica à frente do projecto (embora se deva ter presente que foram vários os historiadores e outros investigadores académicos que se recusaram a dar o seu patrocínio científico a este projecto). O que está aqui em causa é, 52 anos depois da Revolução de Abril, validar a abertura deste centro sob a figura tutelar de Salazar, expoente máximo do regime fascista que durante 48 anos oprimiu o povo português, liquidou as mais elementares liberdades, foi responsável pela guerra colonial, condenou Portugal ao atraso e à miséria, reprimiu, torturou e assassinou.

Não se pode ignorar que os sectores mais reaccionários da sociedade procurarão fazer deste equipamento um local de culto de nostálgicos do fascismo e de apoiantes de grupos fascistas, neo-nazis ou de extrema-direita que se vêm assumindo como uma ameaça à democracia.

É significativo que esta inauguração aconteça (e não podem os promotores desta iniciativa, portadores de vasto currículo, ignorar) justamente por estes dias, quando se assinalam os 90 anos da abertura de um dos mais perversos centros de repressão e tortura: o campo de concentração do Tarrafal, conhecido como “campo da morte lenta”, onde muitos antifascistas foram assassinados.

O povo português lutou pela liberdade e derrotou o fascismo. Foram necessárias décadas para que lugares de memória ligados à resistência acolhessem equipamentos públicos que mostram o que foi o fascismo e a resistência, como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa ou o Museu Nacional Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche. Mais equipamentos destes são necessários – como a instalação de um Museu da Resistência Antifascista, na antiga cadeia da PIDE, no Porto. E também nos currículos escolares para dar a conhecer às novas gerações quem foi Salazar e o regime fascista e o que ele representou enquanto rosto mais visível de uma ditadura terrorista ao serviço dos monopólios e latifundiários, responsável pelo atraso, exploração e liquidação das liberdades, direitos e garantias.

É uma ilusão pensar que se pode ter um discurso histórico isento e objectivo sobre a ditadura fascista e sobre a resistência antifascista num espaço com exposição de objectos e escritos do espólio do ditador e com o seu nome, dando-lhe ainda uma maior centralidade.

Os promotores desta iniciativa não podem ter a ilusão que a mesma não constitui uma afronta à democracia e à Constituição da República Portuguesa e uma ofensa à memória das vítimas do fascismo.

Mais conhecimento sobre o que foi a ditadura, a luta antifascista e maior valorização da Revolução de Abril: é neste caminho que deve assentar a construção de um Portugal mais justo e mais desenvolvido.


VER JOSÉ PACHECO PEREIRA – PORQUE É QUE O PCP MENTE SOBRE O “CENTRO INTERPRETATIVO DO ESTADO NOVO – REGIME E RESISTÊNCIA”?

PORQUE É QUE O PCP MENTE SOBRE O “CENTRO INTERPRETATIVO DO ESTADO NOVO – REGIME E RESISTÊNCIA”?
«O PCP alerta para a abertura, no próximo dia 23 de Outubro, “do denominado «Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência», instalado na “Escola-Cantina Salazar” em Santa Comba Dão, que constituirá mais um elemento no processo de branqueamento do regime fascista português e é uma afronta a todos os que se identificam com o 25 de Abril.” (Comunicado do PCP, 20 de Outubro de 2026)»
Para além do carácter insultuoso do comunicado que o PCP publicou sobre o Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência (CIEN-RR),- insultuoso com as pessoas e instituições que nada têm a ver com o regime do Estado Novo a não ser tê-lo combatido quando era difícil fazê-lo, – há que compreender as razões esta sanha do PCP.
Não, não é pensar que “validar a abertura deste centro [o coloca] sob a figura tutelar de Salazar”, tanto assim que esta sanha do PCP tem um espelho na extrema-direita salazarista, que também ataca a criação do CIEN-RR considerando que ele vai “denegrir” a figura de Salazar. Exactamente assim, uns e outros, o que não querem é que se estude com critérios históricos a mais longa ditadura da Europa, com excepção da URSS. A história e a memória são elementos estruturais da democracia, que tem de ser defendidos.
Repare-se que o PCP sabe bem que o que diz sobre quem vai assegurar o funcionamento do CIEN-RR e é isso que torna insultuosas as suas afirmações:
«Não se trata de analisar os conteúdos da exposição a inaugurar ou de avaliar a equipa científica à frente do projecto.»
Trata, trata. Isto aplica-se à Associação Cultural Ephemera e aos autarcas da Câmara Municipal de S. Comba Dão, da actual maioria PSD, como na anterior maioria PS. O PCP sabe que o CIEN-RR vai abrir com uma exposição sobre a Censura, coisa que oculta deliberadamente, que não me parece algo que possa ser atacado como sendo “branqueamento do regime fascista português” mesmo que se olhe, como deve ser olhada, como uma manifestação do pensamento de Salazar.
Mais, é exactamente porque se privilegia com rigor histórico a criação do CIEN-RR que se pode impedir que se torne “um local de culto de nostálgicos do fascismo e de apoiantes de grupos fascistas, neo-nazis ou de extrema-direita”. Manter a situação actual é que beneficia esse ”culto”.
É verdade que a sede do CIEN-RR é numa escola que tem na sua fachada o nome de “Escola-Cantina Salazar”. Isso não só não nos intimida como, aliás, tem equivalentes em vários sítios da Europa nos quais existem centros e museus instalados em locais que nada tem a ver com os regimes que criaram os edifícios que os acolhem. Há, por exemplo, memoriais do holocausto sediados nas casas dos seus antigos perseguidores. Aliás, também se pode perguntar se o PCP não se incomoda por haver museus em cadeias como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, o Museu Nacional Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche e a eventual instalação de um Museu da Resistência Antifascista, que, não como diz o PCP, numa cadeia da PIDE no Porto, mas na sede da PIDE no Porto. E depois, o que querem é que a Escola se torne num hotel de charme, ou que se pique na fachada o nome, ou, no limite, que se destrua a escola?
Aproximamo-nos da razão oculta desta fúria do PCP quando este afirma que
«É uma ilusão pensar que se pode ter um discurso histórico isento e objectivo sobre a ditadura fascista e sobre a resistência antifascista.»
Isto parte de mais uma mentira de que o CIEN-RR é “um espaço com exposição de objectos e escritos do espólio do ditador e com o seu nome, dando-lhe ainda uma maior centralidade.” A razão do conflito com a extrema-direita salazarista que contesta o projecto da Associação Cultural Ephemera é, exactamente, não se fazer um Museu Salazar.
Então que move o PCP? Uma coisa muito simples, o PCP pretende controlar a história e a memória da resistência à ditadura, impedir que o seu conhecimento revele que nenhum partido como o PCP manipulou mais a sua própria história, e teme que a investigação do Estado Novo lhe seja incómoda. E sabe muito bem que nem os salazaristas saudosistas vão poder transformar uma ditadura de 48 anos num regime benigno, esquecendo a repressão, a censura e a guerra colonial, nem a escola do “Mussolini era muito mau, mas fazia chegar os comboios a horas” vai ter papel, nem a história épica de um partido vai ocultar a resistência dos anarquistas, dos esquerdistas, dos republicanos, ou seja, vai impedir que se estude e se faça a história. Nem os saudosistas de Salazar, são donos da história do Estado Novo e ocultar que foi uma ditadura, nem o PCP é dono da história da resistência e dá atestados via URAP do que é “antifascista” e do que não é.
As pessoas que o PCP insultou neste comunicado terão aqui um espaço para fazer história, com autonomia e independência, mesmo debaixo de uma inscrição que não os deixa esquecer o passado.
José Pacheco Pereira
 
Subscrevo o essencial da análise de José Pacheco Pereira, que toca numa das questões mais sensíveis da nossa democracia: a tentativa de apropriação da memória histórica e, particularmente, da resistência ao Estado Novo.
O papel do PCP na luta contra a ditadura é inegável e merece reconhecimento. Mas esse reconhecimento não lhe confere o monopólio da memória antifascista, nem o direito de determinar quem pode investigar, interpretar ou divulgar esse período da nossa História.
É particularmente revelador que um Centro Interpretativo que inicia a sua atividade com uma exposição dedicada à censura seja acusado, à partida, de branquear precisamente o regime que a praticou.
Também considero pertinente a contradição apontada por Pacheco Pereira: enquanto os saudosistas de Salazar contestam o projeto por razões próprias, o PCP rejeita-o invocando o risco de branqueamento da ditadura, sem sequer fazer depender a sua posição da análise dos conteúdos. São posições distintas, mas que reforçam a necessidade de uma investigação histórica independente, livre de condicionamentos ideológicos.
Estudar o Estado Novo não é homenageá-lo. Conhecer a História não é reabilitar uma ditadura. E defender Abril é, também, defender a liberdade de investigar, questionar e confrontar todas as narrativas, incluindo aquelas que alguns gostariam de tornar intocáveis.
A História não tem donos. Nem à direita, nem à esquerda. E a melhor homenagem que podemos prestar à democracia é não permitir que a memória coletiva seja transformada em instrumento de propaganda partidária.
 
Rui FG mas o PCP impediu alguém de estudar o passado? O que o PCP diz é que, mesmo que haja muito boas intenções, isto vai alavancar o salazarismo e o fascismo. Anote o que digo: vai dar merd@, como no “debate” de JPP com AV.
 
Vítor Vieira bom dia, não afirmei que o PCP tenha impedido alguém de estudar o passado. O que questiono é a legitimidade de condenar antecipadamente um Centro Interpretativo sem sequer analisar os seus conteúdos ou avaliar o rigor científico do projeto.
Compreendo a preocupação com eventuais tentativas de branqueamento do Estado Novo, mas recear que algo possa acontecer não significa que vá acontecer.
Julgar o rigor de um centro de estudos sem olhar para os conteúdos é fechar a porta ao debate e pretender tutelar a História.
A melhor forma de combater o saudosismo salazarista não é condicionar a investigação histórica, mas promover o conhecimento, o confronto de ideias e o escrutínio crítico. É precisamente isso que uma democracia deve garantir.
Parte II – Os documentos também têm uma orientação
Os papéis e materiais apresentados na inauguração pareceram-me marcados por um viés muito acentuado à esquerda. É uma impressão que resulta daquilo que observei e que merece ser discutida, não substituída por um rótulo.
Reunir documentos não basta para garantir rigor histórico. Importa saber o que foi seleccionado, o que ficou de fora, como se contextualizam as fontes e que interpretação é sugerida ao visitante.
E, afinal, entre as figuras e referências apresentadas encontrava-se também Soeiro Pereira Gomes, escritor ligado ao PCP e à oposição ao Estado Novo.
Não tenho nada contra a sua presença. Pelo contrário: a história da oposição à ditadura deve incluir os comunistas, tal como deve incluir republicanos, anarquistas, socialistas, liberais e outros resistentes, com as suas diferenças e divergências.
Mas, se o propósito é combater o monopólio da memória, então o pluralismo tem de ser visível no conjunto da exposição. Não basta escolher figuras historicamente relevantes; é necessário mostrar a diversidade de experiências, correntes e conflitos que constituíram a História.
O mesmo se aplica à história local. A Escola-Cantina Salazar não apareceu por geração espontânea, nem a sua construção se explica por uma única personagem. Há documentos, contributos privados, pessoas e circunstâncias concretas que precisam de ser investigados. O trabalho documental sobre a escola, os seus financiadores e aqueles que contribuíram para a sua existência e recuperação merece atenção, independentemente das preferências ideológicas de quem o consulta. Sim, foi uma escola construída em grande parte pela iniciativa privada e não um presente de Salazar para a irmã.
A História local não pode ser reduzida a uma ilustração de uma narrativa nacional previamente definida.
Salazar, Hitler e a escolha dos pormenores
Durante a apresentação, foi também referida a ideia de que Salazar tomava o mesmo medicamento que Hitler.
Pergunto: qual é a relevância histórica concreta desta informação? Que fonte a sustenta? Em que contexto foi apresentada e que conclusão se pretende que o visitante retire?
A coincidência no uso de um medicamento não demonstra, por si só, qualquer equivalência política, ideológica ou histórica entre duas figuras. porém, a associação pode sugerir mais do que aquilo que efectivamente prova.
Haveria alguma intenção subliminar nessa escolha? Não afirmo que sim. Pergunto por que razão um pormenor destes merece destaque e que função desempenha numa mesa redonda que se apresenta como instrumento de conhecimento histórico.
É precisamente para evitar insinuações fáceis que o rigor exige fontes, contexto e explicações claras.
O pluralismo não pode ser uma palavra de circunstância
Pacheco Pereira acusa o PCP de querer controlar a memória da resistência e os saudosistas de Salazar de quererem proteger a imagem do antigo regime. São acusações políticas que o autor apresenta no seu artigo. Mas o princípio que invoca deve ser aplicado a todos, incluindo aos responsáveis pelo CIEN-RR.
Quem escolhe os conteúdos? Quem decide quais as obras e os documentos que merecem ser expostos? Que critérios presidem à selecção dos especialistas e das perspectivas históricas? Que lugar é dado à investigação local e às pessoas que, há anos, estudam e preservam a memória daquele lugar?
Estudar a censura é indispensável. A repressão, a ausência de liberdades e a guerra colonial não podem ser omitidas. Mas a História do Estado Novo não se esgota na censura. Há também a organização política e administrativa, a economia, a educação, a relação entre o Estado e a Igreja, a propaganda, a vida quotidiana, as transformações sociais e as diferentes formas de adesão, resistência e oposição.
Não se combate uma narrativa única construindo outra narrativa única.
Um centro interpretativo deve oferecer instrumentos para compreender a História, confrontar fontes e reconhecer a complexidade do passado. Não deve pedir ao visitante que aceite uma interpretação apenas porque os seus responsáveis afirmam trabalhar com rigor.
E muito menos deve tratar a comunidade local como um elemento acessório, convocado para dar legitimidade a um projecto do qual nem sempre parece fazer parte.
A vitimização não substitui a demonstração
A vitimização à Calimero – o eterno «é uma injustiça, ninguém gosta de mim» – é coisa do século passado.
A História não se faz distribuindo certificados de virtude a uns e de culpabilidade a outros. Faz-se com documentos, investigação, confronto de fontes, contextualização e liberdade para questionar. Ninguém fica dispensado desse escrutínio por se apresentar como defensor do rigor histórico.
Concordo que nem o PCP nem os saudosistas do Estado Novo são proprietários da História. Mas também não reconheço a nenhum centro interpretativo, comissão científica ou figura mediática o direito de reclamar para si a última palavra sobre o passado.
A autonomia e a independência não se provam por declaração. Demonstram-se na prática, incluindo na capacidade de aceitar perguntas incómodas, reconhecer outras investigações e respeitar quem discorda.
No dia da inauguração, perante pessoas que ficaram à porta, algumas delas com uma ligação efectiva à história e à reconstrução da escola, preferi juntar-me a elas. Talvez devesse ter recusado o convite desde o início. Não por rejeitar a investigação histórica, mas por não querer confundir a participação numa cerimónia com a aprovação da forma como foi organizada.
A liberdade de expressão não se defende apenas nos discursos sobre a ditadura. Também se demonstra na maneira como lidamos com o contraditório no presente. E a memória de uma comunidade não pode ser propriedade de quem organiza uma exposição, escolhe os convidados ou decide quais as vozes que merecem ser ouvidas.
A Escola-Cantina Salazar tem uma história que antecede o CIEN-RR e que continuará para além dele. Essa história merece ser investigada com rigor, documentada com seriedade e partilhada sem exclusões artificiais.
A História não precisa de donos. Precisa de documentos, pluralismo e liberdade intelectual. E Santa Comba Dão merece que a sua memória seja tratada com o respeito que lhe é devido.
Quanto a José Pacheco Pereira, há apenas duas coisas em que estou inteiramente de acordo consigo: sou contra o Acordo Ortográfico e contra as touradas.
Vera Amaral
 
A placa com o nome antigo devia ser removida e fazer parte do espólio no interior do edifício.
Entendo e até subscrevo os argumentos de Pacheco Pereira mas, aqui como em inúmeras realidades da nossa vida democrática, inquieta-me o que acontecerá ao CIEN-RR se, mais à frente, um governo de extrema-direita for eleito. O que farão deste centro, instalado em plena Santa Comba Dão?
Eu confio no José Pacheco Pereira!…
2 coisas
-quem fez resistencia á ditadura, a maioria era efectivamente militante do pcp ou simpatizante
-se fosse a lógica que descrevem, de estudo, poderiam abrir esse centro noutro local, sem ser na terra do ditador, onde aliás, até já quiseram abrir museus para homenagear a figura.
Ou seja, a forma de “validar” o que nao tem validaçao possivel, foi convidar o JPP para que tenha validaçao.
Nota – entao os fascistas nao vao poder branquear o fascismo e fazem-no todos os dias no parlamento e com um assassino como vice presidente da AR que nunca pagou pelos seus crimes?
Há aqui branqueamento e muito.
Lamento mas é a minha opinião.
O CIEN-RR visto por quem esteve lá dentro – e por quem ficou à porta
Parte I – Li o texto de José Pacheco Pereira sobre o Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência (CIEN-RR), no qual acusa o PCP de querer controlar a História e a memória da resistência à ditadura. Estive na inauguração, como convidada, e há uma diferença entre defender os princípios do rigor e do pluralismo num artigo e observar a forma como são postos em prática.
Comecemos pelo princípio: o pluralismo não se proclama. Demonstra-se nas escolhas, nos conteúdos e, sobretudo, na forma como se acolhem as pessoas.
Uma inauguração com gente à porta
Os antigos alunos da Escola-Cantina Salazar, as pessoas que investigam e escrevem sobre a História da terra e as associações nacionais e locais não tiveram o lugar que seria de esperar. Houve convidados, naturalmente, mas a selecção deixou a impressão de que alguns eram mais convenientes do que outros.
E houve algo ainda mais difícil de compreender: pessoas ficaram à porta, sem poder entrar, porque o programa divulgado não indicava que o acesso à inauguração estava condicionado a convite.
Entre essas pessoas encontravam-se algumas que tiveram um papel importante na história da escola e na sua reconstrução. Pessoas cuja ligação àquele lugar não nasceu com o CIEN-RR, nem dependem de um convite para existir.
Eu tinha sido convidada. Perante aquela situação, preferi juntar-me às pessoas que ficaram de fora. Pensando melhor, talvez devesse ter feito o mesmo desde o início: recusar participar numa cerimónia em que a minha presença me poderia colocar do lado de uma elite que, em nome da interpretação da História, acaba por fechar as portas a quem não tem lugar na lista de convidados.
Não se trata de exigir convites para todos os habitantes de Santa Comba Dão. Trata-se de reconhecer que a transparência na organização e o respeito pela comunidade são fundamentais, sobretudo quando está em causa um edifício com uma história tão marcante para a terra.
Um espaço que se propõe interpretar a História deve começar por respeitar as pessoas que também fazem parte dela.
Que pluralismo se pode invocar quando pessoas ligadas à história e à reconstrução da própria escola ficam à porta? E como se pode falar em memória colectiva quando a comunidade local parece passar a figurante da sua própria História?
O filme que o próprio responsável não viu
O artigo de Pacheco Pereira defende que o CIEN-RR permitirá estudar a História com rigor e independência. Mas há escolhas concretas que merecem ser questionadas.
Comecemos pelo filme Pai Nosso -Os Últimos Dias de Salazar. O próprio Pacheco Pereira terá admitido que não o viu. Compreendo: ninguém é obrigado a ver tudo e, neste caso, talvez ninguém mereça. Mas, se o filme foi escolhido para integrar um projecto desta natureza, não será legítimo perguntar que critérios presidiram à sua selecção?
Não estou a defender que se escolham obras por serem favoráveis ou desfavoráveis a Salazar. A questão é outra: qual é a qualidade cinematográfica da obra, que fundamento histórico possui e que contributo oferece à compreensão do período?
Se o rigor é o critério invocado, deve aplicar-se às escolhas de todos os responsáveis, e não apenas às interpretações de que discordam.
(continua)
Não ser do PCP não significa ser anti comunista. E o direito à opinião e informação sobre o regime fascista é de todos os que lutaram contra ele e já vem tarde. Melhor que nunca
uma discordância não é uma mentira – para quê escalar o conflito?
Um tão interessante como esclarecedor texto de José Pacheco Pereira, acerca da irritação intrínseca e do deliberado revisionismo histórico do PCP, a tudo o que mexa com a sua (real) História da resistência à ditadura do Estado Novo.
Claro que só um alucinado não confirmará que o PCP teve um papel de enorme relevo na história da resistência ao fascismo. É um facto absolutamente inegável.
Mas o problema do PCP é que, embora o queira negar a todo o transe, está muito, muito longe de ter sido o exclusivo obreiro do cumprimento desse desiderato que foi o acto de minar, muitas vezes com custos pessoais, o regime, de lutar nas sombras e tantas vezes nas claridades, de arriscar ao limite, de pagar com longas e por vezes, física e mentalmente dolorosas penas de privação de liberdade. A verdadeira História da luta do PCP é hoje sobejamente conhecida. Até a História das lutas intestinas, das traições mais ou menos vis entre camaradas, dos abusos de poder, de delação entre camaradas de perseguição por motivos de género e desta perseguição foram cometidos crimes gravíssimos pelos quais nunca, nem individual, nem organicamente, alguém foi sancionado porque na maioria dos caso esses ajustes de contas partiam da própria liderança.
E, no final, esta sua continuada rançosa ortodoxia com laivos de tirania estalinista, sempre rumo à vitória final, vai acabar por se configurara na morte, pelo menos clínica do partido.
Quantos mais deputados faltam para o absoluto colapso.
As razões da luta podem ser ainda as mesmas, mas as técnicas de combate já mudaram drasticamente há largos, larguíssimos anos.
Mas uma coisa sei eu e sabem quase todos, pelo menos os que acompanharam o partido, mais de perto ou menos de perto: o PCP sabe-o também. E não só sabe como o sabe muito bem.
O problema é que se mudam, perdem até os poucos facciosos que se mantém fiéis a uma coisa que nem os próprios sabem bem o que é, para além de se abrigarem num puro e cego carneirismo.
E, ao fim e ao cabo, é a esquerda democrática que perde.
O PCP, esse, já pouco, muito pouco tem a perder.
Já perdeu tudo ao jogo, esse viciante jogo do faz de conta que ainda por aí vão aparecendo “os amanhãs que cantam”.
Ou que contam.
A memória histórica cumpre às ciências sociais nunca a um partido político. Por muito destaque que o PCP tenha tido na luta contra o Estado Novo, ela é a memória de um povo. Não de um partido político.
Sim, realmente nao sei do que se pode queixar o PC, se o projecto foi entregue a esta figura…
recordar é viver…
…
Polémica do Licenciamento da Quinta da Atalaia (1992–1993)
• Data: Dezembro de 1992 a Janeiro de 1993.
• O Escândalo: Após a mudança da festa para o terreno definitivo na Quinta da Atalaia (Seixal), surgiram fortes contestações e pedidos de inquérito parlamentar sobre a legalidade do licenciamento das infraestruturas e construções executadas no recinto, com acusações de violação do plano de ordenamento do território.
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Investigação sobre Apoios da Câmara Municipal de Lisboa (2013)
• Data: Fevereiro de 2013.
• O Escândalo: O evento enfrentou uma investigação judicial devido a suspeitas de peculato e irregularidades no apoio público. Em causa estava a cedência e o transporte de equipamentos urbanos (como quiosques) por parte da Câmara Municipal de Lisboa para o recinto no Seixal.
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Isenções Fiscais do IMI (2014)
• Data: Discussão contínua, com forte enfoque mediático em 2014 e 2020.
• A Polémica: O facto de os terrenos da Quinta da Atalaia estarem isentos do pagamento de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) gera protestos cíclicos por parte de partidos da direita (como o PSD, CDS e IL). O PCP defende-se legalmente com a Lei de Financiamento dos Partidos, que isenta as forças políticas de impostos sobre o seu património, mas os críticos consideram um privilégio injusto por se tratar de um evento com contornos de festival comercial de base lucrativa.
..
Caso de Agressões, Roubo e Sequestro por Seguranças (2015)
• Data: Setembro de 2015.
• Os Crimes: Foi o caso de violência criminal mais grave associado ao evento. A PSP recebeu quatro queixas-crime (e relatos de seis vítimas no total) contra os elementos de segurança da própria Organização da Festa do Avante. Os queixosos denunciaram atos graves de agressões físicas violentas, roubo e sequestro dentro do recinto.
• Desfecho: O caso foi investigado pela Polícia Judiciária, mas o Ministério Público acabou por arquivar o inquérito em abril de 2017 por “falta de provas” e impossibilidade de identificar os autores específicos dos crimes.
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Acusações de Censura Literária – Caso Luaty Beirão (2018)
• Data: Agosto de 2018.
• O Escândalo: A editora Tinta-da-China acusou publicamente o PCP de censura ideológica ao banir o livro “Sou Eu Mais Livre, Então” do ativista luso-angolano Luaty Beirão da Feira do Livro do Avante!. A editora alegou que a organização barrou a obra por esta “incomodar os camaradas do MPLA” (partido governante em Angola). O PCP rejeitou a acusação, atribuindo a polémica a um sentimento de “anticomunismo primário”.
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A “Festa da Pandemia” e Litígio com a DGS (2020)
• Data: Agosto e Setembro de 2020.
• O Escândalo: Em pleno estado de calamidade devido à pandemia da COVID-19, o PCP decidiu avançar com a realização da festa. Isto gerou uma gigantesca vaga de indignação política e social, com acusações de “tratamento de favor” e discriminação positiva face a outros festivais que foram proibidos. Houve ameaças de providências cautelares e queixas-crime por crime de propagação de doença contra os organizadores, embora o evento tenha avançado com lotação reduzida determinada pela DGS.
JPP caí no mesmo erro que foi o debate televisivo em que participou…
Seja lá qual for a intenção, e acredito que sejam as melhores, com que patrocina este espaço a forma como as suas boas intenções vão ser deturpadas, distorcidas ou completamente reinventadas para criar “sensações” está completamente fora da alcance dele…
Mais, era bom lembrar que mesmo as melhores pessoas não duram sempre e que mesmo que a actual equipa mereça a maior das confianças, amanhã quem sabe?
A verborragia do pcp é o continuar a esconder o sol com uma peneira e, assim, obstaculizar a procura de conhecimento de factos que a Historia carreia.
Quanto mais se souber sobre a Ditadura – e x e c r á v e l – que foi a do regime salazar-caetano melhor será para a Democracia que esse regime negaram.
JPP é um empedernido anti comunistas, desde os seus tempos de esquerdista, um radical sectario que nem sequer admite uma opinião e uma posição diferente da sua!
Perdoa-lhes senhor, que eles não sabem o que dizem. Há muito tempo…
P”C”P, como é do conhecimento geral (quer dizer espero que , sim), é um partido com posições politicas, social-fascistas…eu sei o que escrevo…
Onde posso encontrar o comunicado do PCP, alguém sabe dizer-me?
Não deveríamos ter medo da história
Muito bem!
E para quando o PCP assumir a sua verdadeira história?
As purgas, os assassinatos internos….
Ó Zé, “esqueceste-te” desta parte?
“Não se pode ignorar que os sectores mais reaccionários da sociedade procurarão fazer deste equipamento um local de culto de nostálgicos do fascismo e de apoiantes de grupos fascistas, neo-nazis ou de extrema-direita que se vêm assumindo como uma ameaça à democracia.”
Até se poderia pensar que tens boas intenções, mas disso o inferno está cheio. Olha para a tua caturrice de querer “debater” com o coiso: não serviu de nada.
O fascismo não se combate com debate. Combate-se solucionando os problemas da população, pois é a sua indignação e revolta que pode ser arregimentada para os fins dos fascistas, como bem sabes.
Quem não te conhecer que te compre.
Ah! E da próxima vez que quiseres levar alguma coisa para a tua colecção, pede em vez de roubares, como te disse.
Não vão ter condições para fazer um trabalho isento e nunca deviam ter aceite. Vamos ver o que vai acontecer ao centro daqui a um ano ou dois.

URAP

Porque se insiste no mito e em ressuscitar o ditador

urap.pt/index.php/especial/contra-o-museu-salazar/1508-porque-se-insiste-no-mito-e-em-ressuscitar-o-ditador

150028764 4277456075602398 7908051647565048326 oEm Fevereiro de 2025, foi firmado um protocolo entre a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e o Arquivo Ephemera visando a criação do “Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência”. Recentemente, foi anunciado que este centro “do Estado Novo”, não do “Estado Fascista”, ia realizar, em Outubro, a sua primeira iniciativa, com uma exposição.A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) lembra a longa luta que – com a população de Santa Comba Dão, de inúmeros democratas, entre os quais historiadores, de ex-presos políticos e seus familiares e de posições da Assembleia da República – tem sido travada para afastar este propósito na terra onde nasceu o ditador Salazar. A instalação deste centro na Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, a poucos metros da casa onde nasceu o ditador, só servirá para avivar o mito do estadista do fascismo e para desculpabilizar os seus crimes. É por isso lamentável que agora outros reconhecidos historiadores não tenham em conta esta luta de muitos anos.

A URAP considera importante a criação de espaços de memória e de centros de investigação e divulgação do regime fascista. Mas questiona-se porque não fazê-lo em locais que têm sido sugeridos, por historiadores, como nas cidades de Coimbra ou do Porto, nomeadamente, na antiga prisão da PIDE, na Rua do Heroísmo, onde a URAP e muitos democratas e antifascistas lutam há anos pela criação do Museu da Resistência Antifascista.Que se criem mais museus como o do Aljube, em Lisboa; o Museu Nacional da Resistência e Liberdade (MNRL), na Fortaleza de Peniche; se erga memoriais, como o que o que está a ser preparado pela URAP e pela Câmara Municipal de Oeiras próximo da cadeia de Caxias; ou como o Centro Interpretativo, em construção, na Fortaleza do Heroísmo, nos Açores. A estes, podemos ainda juntar os recentes murais inaugurados em Mafra, Silves, Covilhã, Leiria e Palmela.A URAP considera que a escolha deste local só servirá para suavizar, branquear e desculpabilizar as criminosas responsabilidades do ditador e do regime fascista. A História do fascismo deve ser estudada e divulgada, mas não em Santa Comba Dão,  onde permanecem registos locais e pessoais suavizantes do ditador. Não! Face à história conhecida não pode haver neutralidade.
Esta insistência, envolve de novo a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e historiadores, depois de outros se terem, entretanto, afastado de tal projeto. Não se trata, evidentemente, da realização de iniciativas que deem a conhecer o que foi o fascismo, a repressão, a censura. A URAP realizou recentemente em Santa Comba Dão uma sessão para apresentar o livro “Forte de Caxias, a repressão fascista e a luta pela liberdade”. Para esta iniciativa a URAP convidou o presidente da Câmara Municipal, que informou não poder estar, mas se fez representar por um vereador e técnicos municipais.Os democratas e antifascistas que desde há muito condenam a criação de tal museu, tenha ele o nome que tiver, fazem-no porque esse projeto presta-se a reativar e ressuscitar o mito e a falsa imagem do estadista do fascismo, e não o ditador responsável pelo Portugal atrasado, reprimido, obediente, escravizado, perseguido. E ainda o colaborador de Hitler, Mussolini e Franco, responsável direto por centenas de mortos às mãos da sua polícia política, e pelas guerras criminosas que iniciou e manteve contra os povos colonizados, onde pereceram milhares de portugueses e de combatentes das ex-colónias.É do conhecimento público que a Câmara Municipal negociou com a família de Salazar espaço, objetos pessoais, artefactos e compensações, envolvendo consideráveis verbas, e que a Direção Geral da Cultura enviou para Santa Comba Dão duas grandes estátuas de Salazar, que certamente não serão destruídas. Ao contrário do que aconteceu no resto do país, onde as populações a seguir ao 25 de Abril procederam à higienização da toponímia de ruas e praças, dando-lhes outros nomes – como por exemplo o da liberdade, democracia, do 25 de Abril e mesmo o nome de democratas e de ex-presos políticos -, em Santa Comba Dão tem sido perpetuado o nome do sinistro ditador Salazar na escola, na rua, a que se junta a divulgação constante do cemitério e do sítio da campa do ditador para visitação e culto.Para o povo de Santa Comba Dão e para o concelho, o período salazarista não representou nenhuma época áurea de desenvolvimento, tal como para nenhum dos concelhos do interior,  nem para o país. Bem pelo contrário, fustigou essas regiões com a emigração, o atraso, o abandono, o definhar das aldeias, impondo modelos de vida económico-social e cultural bafientos, retrógrados, fechados, cujas consequências ainda hoje são visíveis.Para desenvolver a região de Santa Comba Dão é preciso criar um concelho vivo, desenvolvido, dinâmico e com infraestruturas básicas de apoio às populações, que favoreça a atração destas, em especial, dos jovens, e inverta os surtos demográficos que hoje conduzem à desertificação e à morte das aldeias. Santa Comba Dão precisa de um Poder Local Democrático com mais meios para  satisfazer as necessidades das populações, de uma escola pública de qualidade para todos, de um Serviço Nacional de Saúde que mantenha em funcionamento os Centros de Saúde e os hospitais, uma rede de serviços públicos próximos das populações e de apostas mais claras na cultura e no desenvolvimento.Podemos, tal como muitos democratas, questionar por que é que em vez de um centro, que inevitavelmente evoca o ditador, não se ergue, sim, em Santa Comba Dão, um mural com o nome dos 33 ex-presos políticos, naturais ou residentes em Santa Comba, um dos quais esteve detido no Campo de Concentração do Tarrafal.Em nome das cicatrizes ainda tão presentes do que foi o regime salazarista, a URAP, apela de novo para que se abandone tal projeto na terra, na escola, na rua do ditador. Apela para que não se dê oportunidade para que no futuro – e já sem a melhor intenção dos atuais promotores – se venha deturpar mais ainda o que foi o regime fascista, se possa alimentar o saudosismo de derrotados do fascismo e do colonialismo. URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses,Lisboa, Setembro de 2026


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