EM CONSTRUÇÃO

ASSOCIAÇÃO DE HISTÓRIA DO ESTADO NOVO
LUIS FARINHA / resposta de IRENE PIMENTEL
Nota do Gabinete de Imprensa do PCP
Não à reabilitação do fascismo
20 Outubro 2026
O PCP alerta para a abertura, no próximo dia 23 de Outubro, do denominado «Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência», instalado na “Escola-Cantina Salazar” em Santa Comba Dão, que constituirá mais um elemento no processo de branqueamento do regime fascista português e é uma afronta a todos os que se identificam com o 25 de Abril.
Na sequência das tentativas – sempre derrotadas – de abrir um “museu Salazar”, promovidas pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão em anteriores maiorias PS e, agora, com maioria PSD, a abertura deste equipamento não pode deixar de merecer o repúdio de todos os democratas. Não se trata de analisar os conteúdos da exposição a inaugurar ou de avaliar a equipa científica à frente do projecto (embora se deva ter presente que foram vários os historiadores e outros investigadores académicos que se recusaram a dar o seu patrocínio científico a este projecto). O que está aqui em causa é, 52 anos depois da Revolução de Abril, validar a abertura deste centro sob a figura tutelar de Salazar, expoente máximo do regime fascista que durante 48 anos oprimiu o povo português, liquidou as mais elementares liberdades, foi responsável pela guerra colonial, condenou Portugal ao atraso e à miséria, reprimiu, torturou e assassinou.
Não se pode ignorar que os sectores mais reaccionários da sociedade procurarão fazer deste equipamento um local de culto de nostálgicos do fascismo e de apoiantes de grupos fascistas, neo-nazis ou de extrema-direita que se vêm assumindo como uma ameaça à democracia.
É significativo que esta inauguração aconteça (e não podem os promotores desta iniciativa, portadores de vasto currículo, ignorar) justamente por estes dias, quando se assinalam os 90 anos da abertura de um dos mais perversos centros de repressão e tortura: o campo de concentração do Tarrafal, conhecido como “campo da morte lenta”, onde muitos antifascistas foram assassinados.
O povo português lutou pela liberdade e derrotou o fascismo. Foram necessárias décadas para que lugares de memória ligados à resistência acolhessem equipamentos públicos que mostram o que foi o fascismo e a resistência, como o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em Lisboa ou o Museu Nacional Resistência e Liberdade, na Fortaleza de Peniche. Mais equipamentos destes são necessários – como a instalação de um Museu da Resistência Antifascista, na antiga cadeia da PIDE, no Porto. E também nos currículos escolares para dar a conhecer às novas gerações quem foi Salazar e o regime fascista e o que ele representou enquanto rosto mais visível de uma ditadura terrorista ao serviço dos monopólios e latifundiários, responsável pelo atraso, exploração e liquidação das liberdades, direitos e garantias.
É uma ilusão pensar que se pode ter um discurso histórico isento e objectivo sobre a ditadura fascista e sobre a resistência antifascista num espaço com exposição de objectos e escritos do espólio do ditador e com o seu nome, dando-lhe ainda uma maior centralidade.
Os promotores desta iniciativa não podem ter a ilusão que a mesma não constitui uma afronta à democracia e à Constituição da República Portuguesa e uma ofensa à memória das vítimas do fascismo.
Mais conhecimento sobre o que foi a ditadura, a luta antifascista e maior valorização da Revolução de Abril: é neste caminho que deve assentar a construção de um Portugal mais justo e mais desenvolvido.
URAP

Porque se insiste no mito e em ressuscitar o ditador
Em Fevereiro de 2025, foi firmado um protocolo entre a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e o Arquivo Ephemera visando a criação do “Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência”. Recentemente, foi anunciado que este centro “do Estado Novo”, não do “Estado Fascista”, ia realizar, em Outubro, a sua primeira iniciativa, com uma exposição.A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) lembra a longa luta que – com a população de Santa Comba Dão, de inúmeros democratas, entre os quais historiadores, de ex-presos políticos e seus familiares e de posições da Assembleia da República – tem sido travada para afastar este propósito na terra onde nasceu o ditador Salazar. A instalação deste centro na Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, a poucos metros da casa onde nasceu o ditador, só servirá para avivar o mito do estadista do fascismo e para desculpabilizar os seus crimes. É por isso lamentável que agora outros reconhecidos historiadores não tenham em conta esta luta de muitos anos.
A URAP considera importante a criação de espaços de memória e de centros de investigação e divulgação do regime fascista. Mas questiona-se porque não fazê-lo em locais que têm sido sugeridos, por historiadores, como nas cidades de Coimbra ou do Porto, nomeadamente, na antiga prisão da PIDE, na Rua do Heroísmo, onde a URAP e muitos democratas e antifascistas lutam há anos pela criação do Museu da Resistência Antifascista.Que se criem mais museus como o do Aljube, em Lisboa; o Museu Nacional da Resistência e Liberdade (MNRL), na Fortaleza de Peniche; se erga memoriais, como o que o que está a ser preparado pela URAP e pela Câmara Municipal de Oeiras próximo da cadeia de Caxias; ou como o Centro Interpretativo, em construção, na Fortaleza do Heroísmo, nos Açores. A estes, podemos ainda juntar os recentes murais inaugurados em Mafra, Silves, Covilhã, Leiria e Palmela.A URAP considera que a escolha deste local só servirá para suavizar, branquear e desculpabilizar as criminosas responsabilidades do ditador e do regime fascista. A História do fascismo deve ser estudada e divulgada, mas não em Santa Comba Dão, onde permanecem registos locais e pessoais suavizantes do ditador. Não! Face à história conhecida não pode haver neutralidade.
Esta insistência, envolve de novo a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e historiadores, depois de outros se terem, entretanto, afastado de tal projeto. Não se trata, evidentemente, da realização de iniciativas que deem a conhecer o que foi o fascismo, a repressão, a censura. A URAP realizou recentemente em Santa Comba Dão uma sessão para apresentar o livro “Forte de Caxias, a repressão fascista e a luta pela liberdade”. Para esta iniciativa a URAP convidou o presidente da Câmara Municipal, que informou não poder estar, mas se fez representar por um vereador e técnicos municipais.Os democratas e antifascistas que desde há muito condenam a criação de tal museu, tenha ele o nome que tiver, fazem-no porque esse projeto presta-se a reativar e ressuscitar o mito e a falsa imagem do estadista do fascismo, e não o ditador responsável pelo Portugal atrasado, reprimido, obediente, escravizado, perseguido. E ainda o colaborador de Hitler, Mussolini e Franco, responsável direto por centenas de mortos às mãos da sua polícia política, e pelas guerras criminosas que iniciou e manteve contra os povos colonizados, onde pereceram milhares de portugueses e de combatentes das ex-colónias.É do conhecimento público que a Câmara Municipal negociou com a família de Salazar espaço, objetos pessoais, artefactos e compensações, envolvendo consideráveis verbas, e que a Direção Geral da Cultura enviou para Santa Comba Dão duas grandes estátuas de Salazar, que certamente não serão destruídas. Ao contrário do que aconteceu no resto do país, onde as populações a seguir ao 25 de Abril procederam à higienização da toponímia de ruas e praças, dando-lhes outros nomes – como por exemplo o da liberdade, democracia, do 25 de Abril e mesmo o nome de democratas e de ex-presos políticos -, em Santa Comba Dão tem sido perpetuado o nome do sinistro ditador Salazar na escola, na rua, a que se junta a divulgação constante do cemitério e do sítio da campa do ditador para visitação e culto.Para o povo de Santa Comba Dão e para o concelho, o período salazarista não representou nenhuma época áurea de desenvolvimento, tal como para nenhum dos concelhos do interior, nem para o país. Bem pelo contrário, fustigou essas regiões com a emigração, o atraso, o abandono, o definhar das aldeias, impondo modelos de vida económico-social e cultural bafientos, retrógrados, fechados, cujas consequências ainda hoje são visíveis.Para desenvolver a região de Santa Comba Dão é preciso criar um concelho vivo, desenvolvido, dinâmico e com infraestruturas básicas de apoio às populações, que favoreça a atração destas, em especial, dos jovens, e inverta os surtos demográficos que hoje conduzem à desertificação e à morte das aldeias. Santa Comba Dão precisa de um Poder Local Democrático com mais meios para satisfazer as necessidades das populações, de uma escola pública de qualidade para todos, de um Serviço Nacional de Saúde que mantenha em funcionamento os Centros de Saúde e os hospitais, uma rede de serviços públicos próximos das populações e de apostas mais claras na cultura e no desenvolvimento.Podemos, tal como muitos democratas, questionar por que é que em vez de um centro, que inevitavelmente evoca o ditador, não se ergue, sim, em Santa Comba Dão, um mural com o nome dos 33 ex-presos políticos, naturais ou residentes em Santa Comba, um dos quais esteve detido no Campo de Concentração do Tarrafal.Em nome das cicatrizes ainda tão presentes do que foi o regime salazarista, a URAP, apela de novo para que se abandone tal projeto na terra, na escola, na rua do ditador. Apela para que não se dê oportunidade para que no futuro – e já sem a melhor intenção dos atuais promotores – se venha deturpar mais ainda o que foi o regime fascista, se possa alimentar o saudosismo de derrotados do fascismo e do colonialismo. URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses,Lisboa, Setembro de 2026
VÁRIOS




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