Lxª 8.1.946
Mauricinho esplêndido!
Deves ter recebido da filha de Eça de Queiroz uns bilhetes de visita, monóculo, aparos, etc. Não sei se tudo chegou a tempo ou se a exposição já está encerrada. No primeiro caso devem agradecer à ilustre Senhora, e devolver tudo no final; no segundo caso, pª não a desgostarem, demorem isso aí uns dias e depois devolvam, como se de facto tivessem êsses objectos figurado na exposição. Acho q. devem mandar-lhe um catálogo (coisa q. apesar da tua promessa, ainda não chegou cá).
Na carta em q. ela me anuncia a remessa dos objectos pede-me q. os tratem com todo o carinho e eu reforço o pedido. Cuidado não extraviem ou deteriorem, sobretudo o monóculo, sujeito a quebrar-se com facilide. Quando o reexpedirem, façam-no com o maior cuidado, pensando na violência com que os empregos do correio carimbam os pacotes, partindo às vezes com o choque, os objectos frágeis.
Ainda não tive o prazer de receber a Agenda costumada pª 46… E recebeste uma carta registada q. mandei? Se não houver a q. eu quero, paciência.
Afectuoso abraço do
Cardoso Martha
Este postal manuscrito de Manuel Cardoso Martha, dirigido a Maurício Pinto, em 8-1-1946, encontra-se no ARQUIVO EPHEMERA, onde integra o núcleo da Correspondência de Maurício Pinto, um republicano da Figueira da Foz e opositor ao regime de Salazar. A Correspondência de Cardoso Martha, com dezenas de cartas (muitas delas de várias páginas) e de postais, testemunha bem a azáfama de um homem sempre entusiasmado com a sua actividade variada em Lisboa, onde viveu e trabalhou desde muito novo entre o jornalismo, o SNI, mas não só. Nasceu na Figueira da Foz, como Maurício Pinto, de quem era amigo muito chegado.
O postal tem um interesse particularmente caro a qualquer queirosiano, pois refere-se ao monóculo de Eça de Queirós, no contexto da preparação de uma Exposição do Centenário do Nascimento do escritor em 1945. Este é um testemunho para quem a figura de Eça de Queirós (e o seu monóculo) foram muito mais próximos. Em 1900, Cardoso Martha tinha 18 anos, o seu Eça não era, pois, exactamente o nosso.
(Maria Mafalda Viana, texto completo em breve.)


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