Chegados a Paris, depois de atravessar “a salto” as duas fronteiras de Espanha e França, um dos primeiros sítios a que se ia de imediato era uma pequena livraria na Rive Gauche com o magnífico nome de La Joie de Lire. Às vezes chegava-se de manhã, depois de uma viagem atribulada e, à tarde ou à noite (estava aberta à noite), por conhecimento próprio ou indicação de amigos, lá se ia à livraria. Um diálogo verdadeiro entre dois militantes da extrema-esquerda em Paris que não sabiam que o outro estava em Paris, à saída da livraria:
“- Então estás cá?
– Estou mas não me viste.
- Nem tu a mim.”
Tudo quanto era literatura proibida nas duas ditaduras, Portugal e Espanha, estava lá, não só nas estantes genéricas da livraria, como numas bancas especiais onde os exilados políticos que produziam literatura clandestina deixavam as suas publicações nas línguas originais. Numa altura de grande sectarismo, a livraria era eclética tinha materiais dos grupos revolucionários maoístas, trotsquistas, comunistas, situacionistas, anarquistas, numa convivência única e rara. Estávamos numa época em que os conflitos sectários eram duros, às vezes resolvidos a murro, ou com acusações, banimentos e tentativas de censura do outro.
A Joie de Lire, ligada a um dos mais famosos editores revolucionários François Maspero, acabou por ser vítima dos ciclos políticos. mas também da prática generalizada de roubo de livros, a que o pessoal fechava os olhos. Temos no ARQUIVO EPHEMERA não só um saco original, como as capas para proteger os livros com desenhos de Siné.


Estive lá em 1972 e uma das coisas que reparei é que estava lá, feito estátua, um pide, com uma gabardine azul até aos pés e toda sebenta, a ver quem entrava. Não sei se era permanente esta “vigilância”…