NÚCLEO DE GASTRONOMIA DO EPHEMERA: A queima do Vinho do Porto pelas tropas miguelistas, a 16 de Agosto de 1833.

“[…] ontem, do meio-dia para a tarde levou o inimigo a efeito as ameaças, que nos tinha feito, do derramamento do Vinho, incendiando os Armazéns da Companhia em Vila Nova, para cujo fim haviam ali mandado pôr na noite do dia antecedente pólvora suficiente: nem pode V. Exa fazer justa ideia do horroroso quadro, que por um tal acto de atrocidade se apresentou aios olhos dos habitantes desta Cidade, aonde tantos deles tinham as suas fortunas: o Vinho era visto em chorro pelas ruas buscar o Rio, e as chamas, que duraram toda a noite, faziam a cena mais pungente […]”
Publicado n’A Crónica Constitucional de Lisboa, de sexta-feira, 23 de Agosto de 1833.
O relato de um oficial do Exército português que combatia as forças Miguelistas diz respeito ao episódio da queima de Vinho do Porto, armazenado em Vila Nova de Gaia, ocorrido a 16 de Agosto desse ano.
No Núcleo de Gastronomia do Arquivo Ephemera há um recorte do Jornal de Notícias, de 1957, referindo esse episódio. E falando do Barão de Haber, um francês que terá tido um papel crucial em todo o episódio. Haber, banqueiro, judeu, será descendente de um Samuel de Haber, financeiro franco-austríaco (https://fr.wikipedia.org/wiki/Samuel_de_Haber).
Luz Soriano, um dos “Bravos do Mindelo”, escreveu sobre o episódio da queima do Vinho do Porto: “A terrível scena que d’esta destruição se seguiu mostrou bem qual seria a sorte do Porto, caso alli entrassem as tropas miguelistas, e equiparou D. Miguel aos tyrannos de mais famigerado nôme, não tendo pejo de mandar reduzir a cinzas as riquezas de tantas familias portuguezas, muitas d’ellas innocentes nas contendas civís e outras muitas até bastante distinctas pela extrema fidelidade com que tinham abraçado e servido a causa da usurpação. Entre os rôlos de fogo e de fumo se presenceou, pois, a destruição de uma immensa riqueza de vinhos, que vieram tingir de vermelho as aguas do Douro: todo o pôvo do Porto e mesmo os sectarios de D. Miguel olharam para tão atroz espectaculo corridos de indignação e horror”.
O levantamento do cerco do Porto pelas tropas miguelistas ocorreu dois dias depois, a 18 de Agosto.

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