TSF
O mundo da Ephemera expandiu-se no Barreiro
Os seis quilómetros de arquivos da associação cultural fundada pelo historiador José Pacheco Pereira já reclamavam mais espaço e neste 9 de junho, Dia Mundial dos Arquivos, o desejo foi concretizado, com a inauguração do armazém 4 no Barreiro. O novo espaço permitiu libertar o armazém principal e “arrumar muita coisa que estava por arrumar”.
José Pacheco Pereira começa a visita à TSF pelo único auto-retrato conhecido do poeta Eugénio de Andrade, mas podia começar por qualquer outro artigo em exposição no novo espaço. A lista é longa e não faltam objetos da história contemporânea para descobrir ou redescobrir no Barreiro.
O novo espaço junta um conjunto de “bibliotecas que estavam dispersas”, incluindo “a biblioteca de comunicação social de Francisco Pinto Balsemão, que inclui o que ele nos ofereceu, em vida, e o que a família doou depois da morte, e alguns núcleos do [Emídio] Rangel, do início das rádios pirata”. Entre as novidades está a biblioteca colonial, com dois anexos. “São duas grandes bibliotecas de pessoas que estudaram as colónias. Temos a biblioteca integral do Adelino Torres, um angolano branco que fugiu para a Argélia, e que fazia parte de uma organização clandestina em Angola, e depois foi da Argélia para França, e acabou por vir para Portugal, onde deu aulas no ISEG. E também temos aqui a biblioteca de Matemática, da Associação de Professores de Matemática”.
Cerca de 150 voluntários trabalham em todo o país nos pontos de recolha e na organização de exposições da Ephemera. Quanto mais o Arquivo cresce, mais difícil é fazer contas. Pacheco Pereira arrisca que a associação cultural deverá ter uma dezena de grandes bibliotecas. No total será “qualquer coisa como 750 mil títulos, um milhão de panfletos, 100 países, dezenas de milhar de cartazes de todo o mundo, dezenas de milhar de fotografias, milhares de pins e milhares de objetos”.
No armazém 4, agora por conta da Ephemera, encontra curiosidades como “autógrafos de quase todos cosmonautas soviéticos”, “uma secção da maçonaria” e materiais políticos de extrema direita, como “uma moca de Rio Maior com a indicação de que foi oferecida ao [general] Kaúlza de Arriaga, [cuja carreira esteve ligada a operações militares de combate à guerrilha em Moçambique], um bastão do movimento de Mário Machado, oferecido por ele, aliás, e ainda uma parafernália artística dos diferentes partidos, materiais que vieram da Ucrânia, publicidade antiga com os bebés Nestlé e que hoje provavelmente seriam considerados pedofilia”.
Os objetos também mostram as histórias da clandestinidade da extrema-esquerda. “Temos aqui o aparelho de falsificações da LUAR [Liga de Unidade e Acção Revolucionária], que eu fui buscar a Paris. É uma mala a desfazer-se, mas com carimbos que foram roubados em vários consulados pela LUAR e que serviam para falsificar documentos. Também temos alguns dos documentos falsificados com estes carimbos”, explica.
Além de uma secção “trumpista”, dedicada ao Presidente norte-americano, o novo espaço da Ephemera tem também “um Salazar recortado”, e “uns objetos de vudu”. Pacheco Pereira deixa o convite: “Quem quiser pode espetar umas coisas no [Volodomir] Putin, no [André] Ventura, no [Pedro] Passos [Coelho] e no [Paulo] Portas”.
E também há filmes, incluindo os originais do realizador José Fonseca e Costa. “Temos um espólio de Fonseca e Costa, em muitos casos comentados pelo [poeta e publicitário] Alexandre O’Neill, ou [pelo escritor José] Cardoso Pires e ainda de outro cineasta comentado por [Álvaro] Cunhal”.
“É um mundo”, resume Pacheco Pereira. E esse mundo vai-lhe chegando às mãos “de todas as maneiras”, seja através de ofertas ou compras, nomeadamente em leilões fora de Portugal.
A inauguração do armazém 4 no Barreiro aconteceu no âmbito da iniciativa Cidade dos Arquivos. O Barreiro concentra o maior volume de arquivos da Ephemera. A associação cultural está também presente em Lisboa, na Rua do Forno do Tijolo, e na Póvoa de Santa Iria.
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