MANUEL VILLAVERDE CABRAL SOBRE AS ARMAS DE PAPEL

21-02-2013(Texto de apresentação de As Armas de Papel de autoria de Manuel Villaverde Cabral, proferido na sessão de lançamento na Torre do Tombo, e publicado no Público, 12 de Maio de 2013.)

Trata-se de mais uma obra de JPP com a maior relevância para uma história recente do país porventura algo esquecida por vezes. Com efeito, são obras como esta e outras que o autor publicou – antes e depois do 25 de Abril – que demonstram duas coisas simultaneamente:

– por um lado, podemos agora verificar que o país mexia já antes do derrube da ditadura em 1974 e mexia fortemente: só à sua conta, a esquerda radical – a esquerda à esquerda do PCP – publicou mais de centena e meia de revistas, jornais e folhas volantes de agitação contra o regime ditatorial em pouco mais de 10 anos, entre 1963 e 1974, exactamente o período em que militantes antifascistas como eu próprio estiveram exilados em França;

– por outro lado, este livro mostra de novo que toda esta agitação, assim como as movimentações das forças políticas oposicionistas mais moderadas, desde a chamada “Ala Liberal” de Sá Carneiro até ao PCP, passando pelo PS fundado em finais de 1973, também essas movimentações pouco mais eram do que ferroadas na carapaça da ditadura, se não fosse a Guerra Colonial (1961-1974) e, finalmente, o levantamento militar das Forças Armadas contra essa guerra e, por tabela, contra o regime, derrubando-o em 25 de Abril.

É talvez esta uma das primeiras e fundamentais lições da pesquisa gigante que JPP vem acrescentar a outras obras anteriores, nunca sendo de mais destacar os três grossos volumes, cuja continuação se anuncia para breve, sobre Álvaro Cunhal e o PCP, os quais constituem, na minha opinião de investigador e de antigo militante que conheceu muitos – que não todos, claro – destes meandros, um dos melhores, se não o melhor, livro escrito sobre o Portugal do século XX!

A lição reside no facto de o anterior regime não só não ter caído de podre como também o de não ter caído exclusivamente por obra e graça dos militares. A literatura reunida no presente volume espelha, na sua aparente marginalidade, que o país se encontrava então em verdadeiro pé de guerra, comprovado aliás pelo número crescente de prisões, sobretudo estudantes envolvidos em acções relacionadas com a Guerra Colonial. A essa agitação veio acrescentar-se em determinada altura o golpe militar contra a mesma Guerra Colonial destinada a uma derrota histórica mas que nunca mais chegava. O golpe de 25 de Abril desfazia assim o outro golpe que a mesma corporação militar havia dado em 1926 quando instaurou a ditadura que, por seu turno, abriu o caminho ao “Estado Novo” salazarista.

Foi a combinação de três contra-movimentos cada vez mais interdependentes – enumerando: (1) um movimento popular, classista, vindo até certo ponto de baixo para cima e encabeçado por um PCP que ainda aí tinha o principal papel mas já se encontrava longe de estar sozinho; (2) um novo movimento estudantil de uma classe média em alargamento, que a certa altura se vai encontrar com o anterior ainda na década de 1960, antes e depois do Maio de “68; e finalmente, (3) um terceiro movimento, que tem muito que ver com essa classe média em crescendo e que virá a desembocar no chamado MFA! – foi a combinação destes três movimentos contra a ditadura, dizíamos, que acabou então por derrubá-la, como agora aqui fica melhor documentado, graças ao trabalho de décadas levado a cabo por JPP, tantas quantas aquelas em que nos conhecemos, já que, segundo ele escreve, terei sido dos primeiros a dar-lhe o meu testemunho de “mais velho”, curtido nas brigas antifascistas desde a campanha Delgado em “58 até às vésperas do 25/4, passando por Maio de “68.

Aprecio e concordo, por outro lado, com a abertura do livro em que JPP o apresenta como “um trabalho de amador […] feito por curiosidade e gosto”… ininterruptamente – “a never ending story”, como o autor lhe chama – durante uns 30 anos. Neste sentido, é bom que se diga que a ideia de “amador” funciona aqui como uma discreta crítica aos “profissionais”, isto é, aos investigadores universitários, que sem o confessarem a ninguém e sem realmente o pensarem, a verdade é que dão a impressão nas suas – nossas – teses académicas de que o mundo começou e acabou com elas: como se não se tratasse, efectivamente, daquela “never ending story” em que, para falar por mim, ainda hoje me perco, esqueço e relembro, sem conseguir esgotar o fio das nossas múltiplas experiências cruzadas, recordações, lapsos e confusões!

JPP reivindica a utilidade deste trabalho: é modesto de mais. A pesquisa é preciosa em si mesma e, depois dela, muitas “teses” como aquelas de que falei terão de ser revistas e escritas de novo, desde logo a tese do país adormecido… O “lugar da memória”, como ele explica, é traiçoeiro e enganador, mas não é falso nem muito menos descartável, até porque, nas “brumas da memória”, o que foi é aquilo que se acreditou viver e que a memória guardou!

Concordo também com a cronologia do Autor. A minha própria experiência do exílio coincide dia por dia com os marcos da pesquisa – 1963-1974. Com efeito, é quando a vaga delgadista, que vai de 1958 até, já declinante, ao 1.º de Maio de 1962, se esgota sob o efeito da repressão e vai morrer na praia das prisões e das fugas para o estrangeiro, é nessa altura que nasce aquele bicho esquisito que, na sequência de outros relatos, este livro ilustra à exaustão – o esquerdismo, essa famosa “doença infantil do comunismo”, em suma, a esquerda radical que palpita em mais desta centena e meia de publicações recenseadas, descritas e analisadas!

Hoje, a minha convicção é que essa tendência “esquerdista”, que por definição contraria a difusão e a consolidação do “reformismo”, das alianças de classe e das sociais-democracias, é endémica em Portugal, antes e depois da ditadura salazarista, e marca muita da nossa vida política, como talvez esteja a acontecer de novo agora. Mas não irei por este último caminho. Em compensação, a prova fica feita aqui das raízes do “radicalismo” que caracterizou o PREC e que se forjou, segundo JPP, em particular depois de Maio de “68.

O autor procede depois a um trabalho extremamente metódico de classificação e arrumação das publicações – editadas dentro e fora de Portugal – bem como das suas ligações à expansão e fragmentação da galáxia dita então “marxista-leninista”, desde o maoísmo inicial desencadeado por essa porta aberta para “sair do PCP pela esquerda” que foi o chamado conflito sino-soviético, por onde se enfiaram todos os descontentes dos alegados pacifismo e reformismo do PCP, sobretudo depois das guerras coloniais nas décadas de 1960 e “70, até esse fenómeno único, basicamente estudantil, que foi, já no final do período de Marcelo Caetano, o MRPP, o qual desapareceria pouco depois do 25 de Abril para virtualmente todos os efeitos práticos.

JPP está no seu melhor quando descobre as versões portuguesas do “modelo leninista” do jornal revolucionário enquanto “agitador”, propagandista e, acima de tudo, enquanto “organizador das massas” (p. 38), cada vez mais apontado – efectiva ou metaforicamente – para a “luta armada”, a qual vai ser, juntamente com a Guerra Colonial e em ligação cada vez mais estreita com esta, uma das duas setas apontadas contra o PCP e a oposição à direita do PC. Esta é – e a documentação ressuscitada por JPP mostra-o à sociedade – a dimensão mais distintiva, que nem todos soubemos ver e entender, da movimentação portuguesa contra a ditadura e o autoritarismo em geral, o que ajuda a compreender a singularidade absoluta da revolução portuguesa de 1974-75 e do PREC nas chamadas “democracias da 3.ª vaga”!

O autor conhece bem o terreno e possui perspicácia suficiente de chamar a atenção para aquilo que se pode designar como esses “saberes da propaganda”, bem como a vocação jornalística descoberta por dezenas e dezenas de jovens militantes, muitos fugidos à guerra, que contribuíram decisivamente – através desta literatura hoje praticamente esquecida – para forjar em boa medida o jornalismo democrático português, com as suas coisas boas e outras talvez nem tanto.

JPP dá-se inclusivamente à nobre tarefa, quase sempre negligenciada, de nos explicar com pormenor as tecnologias da imprensa clandestina da época, o que nos permite observar algo de óbvio mas em que não pensaríamos se ele não no-lo tivesse mostrado, ou seja, que as preciosas tecnologias do copiógrafo e da Gestetner estavam a anos-luz de qualquer comparação com as actuais redes sociais internéticas. Aí, mudámos manifestamente de galáxia e os cientistas sociais sabem que a inovação tecnológica arrasta consigo, habitualmente, pessoas diferentes e discursos imanentemente diversos!

Na mesma linha de algum modo, o autor comenta também a repetitiva terminologia dos títulos revolucionários, cada um mais vibrante do que os outros, mas dos quais se vai distinguir pelo vocabulário mais neutro ou mais literário, em suma, menos marcado pela retórica da época, um pequeno conjunto de publicações que o autor privilegia como se esta meia dúzia de jornais e revistas tivesse acabado por resistir melhor, quase 40 anos depois, à inundação de propaganda mais ou menos incendiária mas geralmente de vida curta e fraco alcance!

Para além do notável uso de alguns espólios (como o de Manuel Sertório, onde se encontram ecos do debate que mantinha, por exemplo, com Manuel de Lucena, ambos exilados na época, o primeiro em Argel e o segundo entre a Itália e a França) que nos permitem ver o que se passava atrás das fachadas vermelhas e amarelas do revolucionarismo marxista-leninista, na verdade “maoísta”, JPP distingue da grande massa de publicações que recenseou dois tipos, essencialmente, de jornais e revistas:

– os jornais destinados aos emigrantes portugueses no estrangeiro e às vezes feitos em colaboração com alguns destes, sobretudo O Jornal do Emigrante, que ainda distribuí às portas do Metro de Paris, e O Salto, seu descendente, mas igualmente o Fronteira, com o qual também colaborei. Este último, embora financiado pela LUAR – a organização criada por Palma Inácio na sequência do famoso assalto ao Banco da Figueira da Foz -, abria-se a colaborações independentes e, sobretudo, exactamente como os jornais há pouco citados, visava “as massas”, pretendia captá-las mais pelo conhecimento dos problemas dos emigrantes e das soluções para tais problemas do que, propriamente, convertê-los à retórica revolucionária. Outros independentes, como o futuro deputado do PSD José Silva Marques, autor de uma importante autobiografia política, também se moveram neste campo. Em suma, esses “jornais de massas”, embora fossem permanentemente disputados e infiltrados pelos grupúsculos marxistas-leninistas, não deixam de merecer, pela sua ambição – amplamente falhada, mas nem por isso menos respeitável e inovadora – de alcançar aquela massa de emigrantes que chegou a fazer de Paris a segunda maior cidade portuguesa, o interesse e o aprofundamento que JPP lhes dedica de um ponto de vista histórico e crítico;

– foi de um ponto de vista equivalente a esse, o ponto de vista de hoje, afinal, o ponto de vista da política portuguesa actual, que JPP selecciona três ou quatro revistas de índole, digamos, doutrinária, entre as quais aquela em que mais colaborei, os Cadernos de Circunstância (e os seus “panfletos para as massas”, a partir de certa altura muito influenciados pelo Maio de “68 e pelo “obreirismo italiano”), cujo objectivo – sem deixar de ser político – era já o da reflexão, da pesquisa, da modernização ideológica e, acima de tudo, como o autor diz muito bem: a vontade de conhecer o país e a sua realidade socioeconómica. Era este conhecimento que faltava e isso fazia parte, intrinsecamente, do universo ditatorial: a ignorância, o ostracismo, a confusão entre todos os gatos pardos e, por fim, a divisão entre bons e maus, pior, entre o Bem e o Mal;

– haveria ainda um terceiro tipo especial de publicações identificado pelo autor, que me parece todavia menor; eram os provenientes dos chamados movimentos anti-imperialistas, muitas vezes de estrangeiros misturados com os portugueses, contra a Guerra Colonial e em defesa dos desertores e refractários. No entanto, é bom ter presente que os refractários, se não separarmos os mais politizados dos jovens emigrantes que fugiam à incorporação militar por toda a espécie de motivos sociais e pessoais, terão representado, segundo os responsáveis militares pela crónica oficial da “guerra do Ultramar”, o equivalente a um contingente anual, qualquer coisa como 100.000 jovens, os quais constituíram um movimento de draft-resistance muito maior que o dos americanos no Vietname, para não falar dos franceses na Argélia!

Voltando aos nossos Cadernos, neles participaram muitos jovens amigos e futuros colegas merecidamente recordados por JPP e cuja influência chegou a Portugal, concretamente ao Porto, através dos Cadernos Necessários, naturalmente também aqui mencionados como deve ser, com os quais estivemos em contacto através do José Leal Loureiro. Os Cadernos de Circunstância não eram os únicos a ter a ambição de conhecer realmente o país a fim de aí intervir; antes pelo contrário, talvez até se tivessem tornado, no final, ideológicos de outra maneira: “autonomistas”, “obreiristas” e mesmo “antipartidos”. Mais objectivos, porventura mais politizados no sentido da busca de soluções de curto e médio-prazo, e não só de soluções algo milenaristas como as nossas, eram nomeadamente a Polémica, feita na Suíça por pessoas que prosseguiram até hoje a sua intervenção, como António Barreto e Medeiros Ferreira, mas também Valentim Alexandre, que reuniram aliás as suas memórias desse período num volume recente que vale a pena ler para perceber de onde o país vem; e igualmente a Perspectiva, feita na Bélgica, mais intelectual talvez, mais literária – ou não estivesse entre os seus colaboradores Gabriela Llansol – e certamente mais… pós-marxista, aderindo a uma cultura estruturalizante que levaria muitos de nós à universidade como alunos e, depois, como professores… Além de Augusto Joaquim, porventura o líder deste grupo e que mais tarde escreveu sobre toda a nossa geração, contava-se José de Oliveira e Sousa, que partilhou com José Morais e Amadeu Lopes Sabino um magnífico livro virtualmente colectivo a partir do exílio belga!

O fantástico manancial recolhido e analisado com olho crítico pelo JPP não podia dar-nos os textos das principais figuras que então encheram estas páginas de prosa revolucionária. Além das pessoas que já mencionei e muitas outras, há uma porém com enorme influência em quase toda a galáxia esquerdista e que se distingue, se não pela previsão dos acontecimentos futuros, que então ninguém adivinhou, sem dúvida por uma invulgar força argumentativa contra os mitos da oposição portuguesa de então, sobretudo do PCP e do próprio Álvaro Cunhal. Estou a pensar em Francisco Martins Rodrigues, pseudónimo “Campos”, bastante mais velho e experiente do que nós, já falecido entretanto, com quem então cheguei a colaborar, mais passiva do que activamente, tal era a personalidade dominante dele ao escrever e reescrever na Revolução Popular páginas de crítica política únicas para a época, discutidas sobretudo por ele próprio em intensas reuniões num minúsculo apartamento em que vivi no Norte de Paris em 1964 e “65. É dele que provêm, na minha opinião, alguns dos melhores textos – mas também, muitas vezes, dos mais falaciosos – da actual ideologia esquerdista. Ele tem neste livro o lugar que merece por direito e quem quiser lê-lo ou relê-lo fica a saber onde o fazer.

Para concluir, pode alguém pensar que toda esta inesgotável literatura pouco ou nada era ante o regime e porventura a própria propaganda dos grupos políticos da oposição moderada. Não era essa a opinião nem da ditadura nem, mais que todos, do PCP. Efectivamente, para se ficar com uma ideia do que foi a esquerda radical de 1963 a “74, bem como do impacto que teve então nas classes médias da época e até em alguns segmentos operários, nomeadamente os jovens atingidos pela Guerra Colonial, é preciso recordar algo que JPP só de raspão aborda aqui, mas confirma tudo o que ele diz, a saber, a publicação em 1970-71 dessa violenta diatribe de Álvaro Cunhal contra o esquerdismo chamada, à Lénine, O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista. É preciso ter consciência do esforço e dos recursos investidos por Cunhal, indiscutivelmente um dos mais preparados líderes do comunismo de obediência soviética, e pelo próprio PCP, possivelmente o mais robusto dos partidos comunistas clandestinos, nas duas edições igualmente clandestinas, feitas em precioso “papel bíblia” com mais de 140 páginas de letra miúda, que muito suor e dinheiro devem ter custado ao PCP só para dizer mal de nós!

E deixo para o fim um tema especialmente melindroso que o Autor optou por não tocar aqui mas acerca do qual nos revelará, sem dúvida, o seu pensamento no próximo volume biográfico sobre Cunhal. Trata-se da ARA – uma brevíssima incursão que o PCP promoveu na chamada “luta armada”, especificamente virada contra a guerra colonial – e que, segundo todos os esquerdistas da época se deveu, exclusivamente, à necessidade que o dito partido sentiu de responder às tentativas armadas, bastante débeis também, da FAP e de outros grupúsculos radicais, como viria aliás a acontecer mais tarde, quando o PCP encenou uma “frente unida” identicamente vazia de conteúdo com os partidos da extrema-esquerda durante o PREC… Eis a força que teve então aquilo a que Pacheco Pereira chamou com humor, mas também com propriedade, As Armas de Papel: se elas não devoraram o regime, beliscaram-no visivelmente assim como arranharam a oposição e sobretudo o PCP, tais “tigres de papel”!

(Texto da primeira apresentação do livro As Armas de Papel, feita na Torre do Tombo, em Lisboa, a 5 de Março de 2013.)

1 Comment

  1. Muito boa apresentação, que honra um livro fundamental para relembrar que, antes do 25/04/74, houve várias e não uma única e unitária oposição. Antes pelo contrário!

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