RELATÓRIOS DE HENRIQUE GALVÃO NUMA MISSÃO SECRETA A ESPANHA NO INÍCIO DA GUERRA CIVIL (AGOSTO DE 1936)

“Ontem numa hora vi fuzilar mais de cem. E com uma facilidade, um prazer.”

Originalmente este conjunto de cartas-relatório foi incluído na newsletter semanal  ( EPHEMERA – NOTÍCIAS DA SEMANA (DE 29 DE AGOSTO A 4 DE SETEMBRO DE 2016) mas a pronta resposta dos Amigos do EPHEMERA  nas transcrições e a importância dos documentos levou a que se autonomizasse a sua publicação. Agradeço a Maria Faustino o trabalho realizado. 

Sabe-se que Henrique Galvão esteve em Espanha nos primeiros dias da guerra civil, e que teria efectuado uma espécie de missão “secreta” para informar Salazar sobre o que se estava a passar, a pedido de  Antero Leal Marques, chefe de gabinete de Oliveira Salazar entre 1928 e 1940,  Aqui se publicam alguns desses relatórios (não sabemos se todos) manuscritos por Galvão e enviados a Leal Marques.

As cartas serão posteriormente anotadas, pela sua importância histórica, como documentos oriundos de um observador privilegiado do lado dos sublevados, que inclui relatos testemunhais, conversas com os generais Franco e Queipo de Llano, descrição de operações e da enorme violência da guerra com fuzilamentos em massa, análises sobre a posição portuguesa, italiana e alemã.

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Sevilha, 2 de Agosto

Aqui.

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 2 de Agosto de 1936

Ex.a. Sr. Leal Marques

Para conhecimento de S. Ex.ª o Presidente do Conselho apresso-me a enviar a V. Ex.a um pequeno relatório do que tenho observado. Peço desculpa do estilo, necessariamente telegráfico. Todo o tempo é pouco para agir e resta muito pouco para escrever.

Entrei por V. Real de S.to António tendo atravessado a Andaluzia até Sevilha, onde cheguei hoje depois de ter feito de Ayamonte a Huelva o percurso em camioneta. Em Huelva fui retido por falta de transporte. Consegui um cavalo em que fiz 30 km e acabei num comboio de mercadorias que me deixou hoje de manhã em Sevilha.

Esta dificuldade de transportes não reflecte exactamente a verdade do que se observa em tudo o mais: ordem, serenidade e absoluta confiança no triunfo do movimento. Ninguém duvida do êxito – mas ninguém duvida também que levará seu tempo porque o mal era já muito extenso e estava muito generalizado. Conversei logo à chegada com o General Queipo de Llano que, contra o [que] esperava, me deixou a melhor das impressões. Não sei porquê, através das proclamações que ouvia fiz uma ideia diferente daquela que fiquei depois de ter falado com ele. São impressionantes a sua calma e confiança. Assisti a algumas das suas decisões: precisas, claras, rápidas. Pareceu-me, alem disso ser pessoa de vasta cultura e que sabe o que quer.

Enfim de tudo o que ouvi, que observei e que tenho visto [?] fiz esta primeira impressão:

O mapa que o Diário de Noticias publicou no dia 30 salvo erro corresponde mais ou menos à verdade. O General Llano tem um sensivelmente igual – e, apenso ao mapa, os telegramas oficiais que confirmam o que me mostrou. Simplesmente nesse mapa há que esclarecer o seguinte: o território ocupado pelos revoltosos é território ocupado, mas não é território pacificado. Dentro desta zona como dentro das outras ocupadas há ainda numerosos focos comunistas que as colunas volantes de falangistas e do exercito estão eliminando sistematicamente. Há ainda que fazer uma grande limpeza que se está executando com êxito mas que não se executará sem tempo. Ainda esta manhã saíram colunas para esse serviço de limpeza.

Isto explica a demora das operações para as quais são necessárias colunas que só depois desta limpeza se podem constituir, com a envergadura necessária. Entretanto ontem ainda realizou-se uma operação importantíssima na direcção de Málaga com o objectivo de cortar o nó estratégico de comunicações. Foram mortos 300 comunistas no combate e verificou-se que eles tinham morto 700 pessoas!!… Málaga fica assim completamente à mercê dos revoltosos. Em Valencia parte da cidade está sublevada e procura-se conquistar a restante. Todavia não é exacto que a cidade esteja tomada como chegou a correr. Está nas mesmas condições de Málaga: prestes a cair.

Confirma-se a tomada de Badajoz e confirmo a notícia que deu a Emissora. Simplesmente há ainda alguns focos importantes de comunistas a atacar.

Hoje, a convite do general Lhano, acompanho uma coluna importante que vai para Córdova tentar uma ligação com as tropas que sitiam Madrid. Julgo esta excursão admirável para obter uma informação completa que transmitirei imediatamente.

Noto uma certa desorganização nas forças militares o que também não explica a pouca eficiência destas operações (ilegível) amanhã  confirmação dessa impressão.

Há em toda a parte uma confiança cega na acção do general Mola  cujo prestigio é muito grande. Crê-se todavia que, a não ser que Madrid se renda antes de qualquer ataque decisivo, que este levará tempo a render-se [?].

O general parece tão seguro e tão competente como (ilegível).

O elemento operário passeia em grande (ilegível) pela cidade fazendo manifestações e procurando convencer que o movimento é comunista mas não operário. Saúdam todos com a saudação fascista e dando vivas ao Exercito.

Não é natural que se dê dentro destes poucos dias qualquer acontecimento decisivo. Málaga e Valencia serão naturalmente as primeiras conquistas – mas todas as operações de grande envergadura estão dependendo das pequenas operações contra os focos nas regiões ocupadas.

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Apareceu aqui ha 2 dias um português no Consulado com o nome de Henrique de Sá e Lucas [?] portador do bilhete de identidade n.º 508923, com visto no consulado de Espanha em Lx, que trazia um salvo conduto do governador de Huelva com a declaração de ser jornalista. Disse ser agente secreto da Policia de Defesa do Estado e necessitar falar pela Radio. Disse tais dislates que se tornou suspeito a ponto de terem julgado que falava numa linguagem cifrada. A sua arenga consistiu em fazer saber à família que estava aqui. Usou o pseudónimo de João Martins (mas não soube dizer pseudónimo e dizia sinónimo). O General Llano informou-se e parece que as informações confirmam que é da polícia. Apesar disso continuam a considera-lo suspeito e eu próprio o acho muito estranho. Hoje encontrei-o. Disse-me que ia a Portugal e perguntou-me se queria alguma cousa pois voltaria – mas dizendo que ia por Badajoz ofereceu-se para telefonar de Vila Real de S.to António.

Tudo isto me pareceu muito estranho. Para evitar qualquer possível disparate pedi ao homem para me dar as notícias que tivesse que enviar pois eu transmitiria pela Radio.

Falou na (ilegível) Radio no dia 1 de Agosto pelas 15 ¼ . Resumo do seu discurso arquivado no posto: Chamou a atenção para um certo guarda civil que lhe foi útil pronunciando repetidas vezes o nome deste guarda. Pediu para darem notícias dele a sua família repetindo igualmente estas palavras com acento especial. Disse ter estado com os mineiros de T[?]. Que se encontrava ferido sem importância (o que não é verdade) e que se demoraria ainda uns dias em Sevilha para tratar de cousas relativas a Portugal. O tom das palavras, a incultura que demonstrou, a repetição especial de certos detalhes tornaram-no suspeito – e ainda o é apesar das informações colhidas lhe terem sido favoráveis.

É claro que não tenho poderes para proceder mas julguei conveniente controlar, pelo menos, as noticias que ele quiser dar.

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O General Llano pós à minha disposição os microfones dos postos nas regiões ocupadas.

Forneci hoje às 13 horas a primeira informação radiofónica que devia ter sido registada na Emissora, conforme as instruções e cifra que lá deixei.

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Tenho prometidas revelações importantes sobre relações entre comunistas espanhóis e portugueses que me serão dadas pela polícia de Sevilha.

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O sr. Governador de Huelva e grande amador de comunismo nesta cidade que tinha fugido, foi ontem preso. Será fuzilado amanhã de manhã apesar da sua alta patente militar. A pena de fuzilamento é fatal para todos os que são encontrados com armas na mão. Em Sevilha fuzilam-se todos os dias dezenas de pistoleiros.

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Tendo enviado crónicas ao Diário da Manhã.

Tenho organizado as informações pela Radio.

Conservo, é claro, a maior reserva acerca da minha posição oficial, actuando como um simples jornalista – para o que vim munido dum cartão de identidade do Diário da Manhã.

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As atrocidades cometidas são espantosas. Como julgo útil dar-lhes a maior publicidade pô-las-ei em relevo nas crónicas para o D. da Manhã.

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A Itália está fornecendo numerosos aviões aos revoltosos. Falei com o Cônsul de Itália que logo me dirá a esse respeito cousas interessantes. Dois desses aviões fornecidos foram hoje abatidos tendo morrido os aviadores.

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Confirma-se que Martinez Barrio de Valencia, aconselhou o governo de Madrid a procurar uma solução airosa para confessar a derrota e pôr termo à revolução.

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Sigo hoje às 17 horas com a coluna de Córdova.

Procurarei observar o mais de perto possível (se o conseguir, no próprio campo comunista) o que se está passando.

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Aproveito a vinda do avião “Aguia Branca” para levar esta carta, por ser o único meio seguro de que disponho.

A simpatia por Portugal é enorme. Aclama-se Portugal por toda a parte. O Cônsul tem-se visto em palpos de aranha para não receber manifestações populares no Consulado. Vão no entanto centenas de pessoas deixar cartões de visita.

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Todas as informações que for colhendo as irei transmitindo. Ao mesmo tempo reúno o máximo de elementos para uma campanha clara e cheia de factos logo que o Governo Português reconhecer os vencedores do movimento e não houver a guardar as reservas que há hoje.

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Um trecho da conversa que tive com o General:

– Porque não reconhece o Governo português imediatamente a Junta Revolucionaria? Estamos combatendo um inimigo comum. Se os marxistas vencem Portugal está seriamente ameaçado. Se não vencem (e não vencerão, afirmou) Portugal terá todas as vantagens da posição politica que antecipadamente tinha tomado.

Limitei-me a responder: Não conheço nem me compete conhecer as razões que levam Portugal à sua atitude. Sei que sejam quais forem acho que estão bem e sei que elas são sempre muito poderosas e justas.

O General disse-me que não o tinha compreendido se julgava ver nas suas palavras qualquer censura. Era apenas um desejo. Ninguém melhor do que ele reconhecia os grandes serviços que Portugal estava prestando à sua causa e lhes enaltecia o valor. E tanto assim era que já mais que uma vez afirmara que um dos primeiros gestos do governo triunfante será elevar numa das principais praças de Sevilha um monumento ao povo português.

E termina dizendo: Assim nós encontremos também “nuestro Salazar”.

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Se V. Ex.a entender que me devem ser dadas quaisquer instruções especiais o melhor meio será através do Consulado de Sevilha. Procuro em tudo proceder com a maior prudência e reserva mas não evitar qualquer risco para bem cumprir a minha missão. Julgo que a Emissora prestará no fim um bom serviço à causa anti-comunista.

Peço a V. Ex.a se digne apresentar os meus melhores cumprimentos a S. Ex.a o Presidente do Conselho e recebê-los também.

M.to At. V. Obrig.

Galvão

P.S. Mais uma vez perdão pelo estilo desta carta escrita à pressa sobre os joelhos.

Com tempo – A coluna que devo acompanhar só sairá amanhã o que me permite juntar a esta carta algumas linhas mais:

Realizou-se hoje com entusiasmo indescritível um desfile das tropas do Terço. Todavia a impressão de desorganização nas cousas militares mantem-se. Esta desorganização parece-me devida a insuficiência de comandos.

Tenho a impressão de que dispõem de bons e numerosos elementos materiais apesar do que se crê lá fora. A Itália sobretudo auxilia com bastante clareza os revoltosos. O Cônsul de Itália está permanentemente no gabinete de Queipo de Llano e veem-se numerosos italianos na cidade.

Os sentimentos de amizade por Portugal são cada vez mais visíveis.

Situação geral hoje estacionária. Repito: não creio que se dê nenhum acontecimento de vulto nestes dias mais chegados, pois todo o trabalho consistirá em consolidar a ocupação das regiões conquistadas. A vitória dos revoltosos não oferece a mais pequena duvida mas será lenta.

Espero falar esta noite com o Comandante da Policia Politica que me prometeu informações sensacionais.

Como alguns oficias do Quartel General estiveram na Requisição do Porto e me reconheceram tenho tido as maiores facilidades. De resto a própria condição de português é suficiente para mas garantir.

Se V. Ex.a entender que é interessante que verbalmente exponha com mais detalhe o resultado das minhas observações, até porque é impossível relatar por escrito tudo o que de importante haveria a dizer posso, em duas horas, estar ali, para regressar ou não conforme S. Ex.a o presidente do Conselho o entender conveniente.

H- Galvão

Llerena, 4 de Agosto

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Llerena 4 Agosto

Ex. Sr. Leal Marques

Junto envio mais um pequeno relatório de informações sobre os acontecimentos que se estão desenrolando em Espanha:

Concluída quase a ocupação nas zonas revoltadas começaram as operações decisivas. Saí de Sevilha com a coluna do célebre Comandante Castejon (de Tercio), o qual vai pela fronteira portuguesa, concluir a ocupação da região de Mérida e Badajoz, seguindo imediatamente para Madrid onde completará o cerco da cidade para a ocupação decisiva.

Se quem está em Portugal pode ter quaisquer dúvidas sobre o resultado do movimento por causa da demora que tem havido em liquida-lo – essas dúvidas são impossíveis aqui.

O movimento está virtualmente triunfante e a tomada de Madrid pouco mais será do que a chancela posta sobre a vitoria. De resto nem sequer há inimigo que ofereça resistência. Nas cidades que os governamentais ainda ocupam o simples aparecimento da coluna fá-los entregar. E as manifestações das populações libertadas são delirantes.

A repressão é tremenda e corresponde inteiramente às atrocidades cometidas pelos comunistas. Basta uma simples suspeita de esquerdismo para que o fuzilamento seja memorável (?). Por sua vez a série de fuzilamentos vai instituindo o hábito de matar.

Tenho assistido a vários. Ontem pouco depois de sairmos de Ronquillo ocupada, a coluna parou para executar 30 pessoas. As mulheres não são mais poupadas que os homens. Há pouco foi presa a mulher dum tenente comunista que conseguiu escapar. Ela pagará por ele. Com uma repressão desta natureza – o que é completado depois por uma acção policial intensa e tão inenarrável que ainda hoje se fuzilam diariamente em Sevilha muitos esquerdistas – é natural que o comunismo espanhol fique, por muitos anos completamente desbaratado.

Também por motivos de violência da repressão os de Madrid, que não tem ilusões acerca da sua sorte estão dispostos a defender-se nos últimos redutos. A coluna Castejon fechará a cidade. A água e a luz continuam cortadas pelo general Mola (a agua está a vender-se em Madrid a 0,25 cada copo). Apesar disso não creio numa rendição fácil. Não só os comunistas propriamente dito como também os esquerdistas menos avançados sabem a sorte que os espera. E preferirão morrer tentando.

Madrid todos os dias pede insistentemente a todos os grupos dispersos, à Guarda Civil, etc que se concentre em Madrid. A Guarda Civil aproveita o período para se libertar das forças comunistas e vir ter com os revoltosos.

Ontem à noite juntaram-se 200 de Badajoz à coluna.

De Badajoz só a cidade se conserva ainda em poder dos revoltosos. O caso não tem por agora importância visto que estão cercados, tendo só a saída por Portugal onde não se atrevem a entrar.

Suponho todavia que antes de 5 ou 6 dias se não terá feito a concentração completa em volta de Madrid. Quer-se a todo o custo evitar bombardeamentos da cidade que a destruam ou danifiquem os seus monumentos.

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Apesar de tudo acho francamente lentas as operações. Essa lentidão justifica-se até certo ponto pelos motivos que já expliquei, mas também é certo que se perde muito tempo.

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Acabo de assistir à tomada de Llerena, nos arredores de Badajoz e no caminho de Madrid. Os comunistas foram completamente envolvidos. 300 presos que estão sendo revistados e serão a seguir fuzilados. Esperam-se mais pois há emboscados nas estradas por onde poderiam fugir. Prometeram-me mostrar-me todos os papéis encontrados que refiram ligações com comunistas portugueses. Sobre este assunto o comandante da Policia de Sevilha fez-me revelações interessantes que não me atrevo a confiar a um relatório que pode não chegar ao seu destino

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A Espanha vai resolver violenta e eficazmente o seu problema comunista – mas tenho a impressão de que não resolve por agora o problema politico que a vitória vai determinar. São numerosos os grupos que se uniram para combater o inimigo comum: falangistas, tradicionalistas, exercita, etc. Cada um empurra já os seus chefes para um choque fatal. E os oficiais, pelo que tenho ouvido, também não se entendem Guardadas as devidas proporções em desfavor do caso presente vai suceder o mesmo que na nossa ditadura dos primeiros tempos, antes de Salazar.

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A simpatia por Portugal é cada vez mais viva. É justo confessar que isso se deve, pelo menos na expressão popular que essa simpatia tem, ao Radio Club Português.

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Creio que Madrid não será ocupada antes da próxima semana – mas que na próxima semana, será com certeza.

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Há informações que, por mais reservadas, guardo para portar verbalmente.

Em Cória del Rio, durante a ocupação foi apreendido um estandarte com estes dizeres:

“Federação das Republicas Comunistas Ibéricas”.

Destinava-se a figurar numa festa que se deveria realizar em 1 de Agosto e para a qual contavam já com larga participação portuguesa.

Tenho grande dificuldade de comunicações.

Os meus cumprimentos para S. Ex.a o Presidente do Conselho. Creia-me a V. Ex.a.

M.to At. Admirador. Obrig.

Henrique Galvão

VER NOTA 

Sevilha, 6-7 de Agosto

Aqui.

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 6

Por falta de portador de confiança não pude ainda enviar o relatório junto. Vim a Sevilha, deixando por uns dias a coluna Castejon porque esta estará também uns dias sem qualquer actividade interessante. Vou aproveitar o tempo tentando instalar-me dentro de um foco comunista, o que me permitirá seguir os acontecimentos do outro lado.

Cada vez tenho mais radicada a impressão de desorganização e de crise de comando. A coluna Castejón, por exemplo, que dispõe de todas as condições materiais de mobilidade e que representa hoje um elemento de primeira ordem entre os recursos militares dos revoltosos, não tem rendimento de avanço superior a 30 km por dia quando podia realizar sem dificuldade 80. Tudo é lento – e lento por desorganização e falta de comando. Não há um inimigo no sentido militar da palavra – porque se houvesse as cousas seriam bastante [duras?]. Durante a marcha da coluna até Llerena, dezenas de vezes atravessamos situações em que um pelotão de desordeiros nos desbaratariam… se tivessem umas luzes de conhecimentos militares.

A vitória é infalível e não é possível duvidar dela – mas será a vitória de toda a Nação que se levanta e não das armas que se mostram apáticas e muito menos eficientes do que o mínimo que se lhes poderia exigir.

Só as encontro activas e decididas nos actos de repressão cuja ferocidade corresponde inteiramente à dos vencidos.

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Toda a região de Badajoz e da Estremadura ficaram ocupadas com excepção das cidades de Mérida e Badajoz. O caso não tem importância por agora pois o isolamento em que os comunistas ai se encontram é completo.

Os revoltosos encaram este caso como o da Catalunha, salvo as devidas proporções: Por agora não vale a pena ocuparem-se dele nem distrair forças para os debelar, pois não têm condições nem situação para entravar a marcha geral das cousas.

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Continuo convencido de que a questão politica que vai levantar-se a seguir à vitória será tremenda. A questão da abundância de chefes e da falta de um chefe. Depois, pelo que tenho ouvido, creio que a questão social ficará de pé.

Apesar dos gritos e do entusiasmo sinto que não há o menor idealismo em tudo isto: apenas dois interesses em presença perante um problema de terras. O interesse de ontem e o de hoje não são de molde a resolver o problema. E a questão ficará de pé. Por quanto tempo? Comunistas é natural que desapareçam de Espanha por algum tempo pois não é difícil crer em face do que tenho visto que o número de fuzilamentos já tenha excedido 30.000. Ontem numa hora vi fuzilar mais de cem. E com uma facilidade, um prazer, que garantem o número oficial.

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Insiste-se no desejo de ver a revolta reconhecida pelo Governo Português.

Com os dados, certamente insignificantes de que disponho, vejo grandes vantagens nesse reconhecimento. Creio que os dirigentes revoltosos e que são fatalmente os dirigentes do governo espanhol de amanhã concederiam vantagens importantes contra seu reconhecimento. A posição politica que marcaríamos junto da Espanha seria enorme, pelo menos durante algum tempo. E se esse reconhecimento fosse negociado contra vantagens estudadas e bem formuladas creio que seria um golpe hábil. Todavia os elementos de formação de qualquer juízo de que disponho são insuficientes e compreendo que possa não ser bem visto o que daqui me parece tão claro.

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Não sei se o Governo julga uteis as informações que tenho prestado e as observações que tenho feito. Nem tudo posso dizer por escrito. Para o ponto de vista da Emissora – o ponto de vista que aqui me trouxe – julgo que poderei dar por terminada a minha missão dentro de uns oito dias. Pergunto: Devo ficar e continuar ou devo seguir para ahi.

Desejaria receber instruções neste sentido pois desejo apenas ser útil, objectivamente útil. E para isso farei evidentemente quanto seja necessário.

Galvão.

Sevilha 7

Chegaram ontem três jornalistas franceses do “Paris-Soir” vindos de Tanger. Entre outras cousas sem importância de maior contam que consta em Ceuta terem a Alemanha e a Inglaterra reconhecido o Governo revolucionário. O fundamento do boato é o seguinte: Entrou no Porto um navio de guerra alemão. O comandante foi cumprimentar o General Franco e pouco tempo depois viam-se nas ruas, acamaradando alegremente oficiais espanhóis e alemães. A notícia ou o boato do reconhecimento correu rápida. No dia seguinte chegava um barco inglês cujo comandante procedia da mesma forma. O boato de reconhecimento corre já hoje em Sevilha. Não consegui até agora saber que consistência se lhe pode atribuir. O General Queipo de Llano ou nada sabe ou nada me quis dizer.

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Hoje chega a Sevilha o General Franco que vem instalar-se definitivamente. Já passaram o estreito todas as tropas de Marrocos em magníficos aviões italianos e alemães. O General por agora ficará em Sevilha. É voz corrente que ele e o General Llano já não se entendem, sendo um dos motivos da discórdia a excessiva loquacidade deste. O general Queipo de Llano está perdendo um pouco a popularidade. Acusam-no de ter sido maçon e ter trabalhado para a Republica. A “estrela” agora é o General Franco.

A confusão política vai-se acentuando. Surge a questão monárquica. Enquanto uns desejam apenas considerar dois campos – o fascista e o comunista – independentemente da forma de regime e aceitando o actual porque é o que está, outros agitam-se para um regresso à monarquia.

Ontem foi encontrado o cadáver do aviador Francisco Medina, trucidado pelos comunistas. Realizou-se à tarde o enterro tendo o féretro sido coberto com a bandeira monárquica.

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O cônsul italiano está quási permanentemente junto do General Queipo de Llano. Vive no mesmo hotel em que me encontro e é frequentes vezes chamado pelo General a conferências telefónicas.

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As manifestações junto do nosso consulado são constantes. O cônsul de quem tenho a melhor impressão e que goza realmente de um grande prestígio na cidade, vê-se em dificuldades para conciliar a delicadeza da sua posição com o entusiasmo popular. Embora discretamente e um pouco abandonado por falta de instruções desenvolve uma actividade interessante.

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As colunas Ascencio e Castejon que se dirigem a Madrid alcançaram Mérida.

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Toda a acção, presentemente está concentrada em volta de Madrid e nas colunas que para lá se dirigem. As notícias referentes a quaisquer outros lugares ou operações são em geral falsas, como falsas também as que referem movimento de tropas. Inventam-se ou desenvolvem-se sobre o mais ligeiro boato pela necessidade de alimentar as estações de Radio a quem interessa dar constantemente noticias – mesmo que não haja noticias para dar.

Repito: os movimentos são muito lentos e o que vai vir, virá lentamente.

Galvão

Sevilha,  7 de Agosto

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

7/Agosto

O general Queipo de Llano acaba de dizer-me que tem sido interceptados rádios do Embaixador de Espanha em Lisboa comunicando saídas de navios do porto de Lisboa com destino a portos dos revoltosos. Crê que se trata de um posto clandestino instalado na Embaixada espanhola. A Emissora dispõe dos elementos necessários para localizar esse posto se de facto existe. O que é certo é que os rádios têm sido expedidos pelo Embaixador e que estão causando embaraços. Cadiz foi bombardeada devido a um desses rádios.

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Em conversa com Queipo de Llano sugeri-lhe a vantagem de fazer ocupar quanto antes a pequena parcela de território que ainda está povoada por revoltosos, confinante com Portugal, na Província de Badajoz. O objectivo da coluna Castejon não compreendia a ocupação de toda esta região à qual, por via do isolamento em que está, não atribuíam grande importância. Insisti na minha sugestão pois julgo que será preferível não haver qualquer solução de continuidade nas zonas ocupadas ao longo da fronteira nem corredores comunistas. O general concordou e mesmo na minha presença mandou expedir ordens terminantes a Castejon para que a cidade de Badajoz e Mérida (esta que já está investida) sejam tomadas e ocupadas.

O acontecimento deve verificar-se hoje ou amanhã – talvez amanhã porque ha muitas pontes destruídas na região.

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Na mesma conversa que tive com o General fui informado do seguinte: Entre os prisioneiros dos últimos dias conta-se um espanhol amigo pessoal de Botelho Moniz e por quem este resolveu interessar-se junto de Queipo de Llano invocando os serviços que Radio Club Português tem prestado à Espanha. Nesse sentido enviou emissários que decerto puseram o pedido com infelicidade pois, em poucas palavras, foi feito mais ou menos nestes termos: “Ou o General atende o pedido ou eu sou homem para tomar uma atitude contraria a que tenho mantido [?]”.  Conheço bastante Botelho Moniz para saber que ele não faria isso. Todavia o que é certo é que a questão está posta com infelicidade. Acresce a circunstância de haver contra o protegido de B. M. cousas graves. Não tenho dúvidas sobre a sorte que o espera. O general mostra-se penalisado com o que acontece mas diz que será intransigente. Mandou responder a B. M. uma carta muito amável mas que encerra uma negativa terminante.

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Mais uma vez peço me perdoe a redacção e caligrafia desgraçadas, mas não tenho tempo para fazer doutra forma. Tenho que usar de uma grande mobilidade, percorro algumas centenas de quilómetros por dia. Mal tenho tempo para pensar. Alem disso um ferimento muito ligeiro que recebi em Llerena começou a infectar e fez um pouco de febre. Já não é nada mas roubou-me algumas horas.

Galvão

Sevilha, 8 de Agosto

Aqui.

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 8

Ex.mo Sr. Leal Marques

Junto mais algumas informações para conhecimento de S. Ex.a o Presidente do Conselho:

– Chegou ontem como foi noticiado o General Franco, com o qual hoje me avistarei. Veio acompanhado de todo o seu estado maior e assumirá a chefia militar das operações. O acontecimento tem produzido um grande entusiasmo na população que, sem duvida, vê em Franco o seu chefe de confiança. A chegada de Franco é tida por todos como decisiva para a liquidação do movimento.

Do seu estado maior fazem parte oito oficiais alemães que agem sem a menor reserva. Para justificar a sua presença arranjou-se uma fórmula: vêem como oficiais legionários visto que a legião admite estrangeiros. A fórmula é bastante côxa pois os estrangeiros na legião não passam de sargentos salvo casos muito raros de serviços extraordinários prestados em campanha. Mas evidentemente todos pensam que não é este o momento para discutir fórmulas. Pelo contrario: o caso cita-se e espalha-se dando-se-lhe o significado de um reconhecimento formal por parte da Alemanha. Diz-se ainda que esse reconhecimento foi negociado com grandes vantagens futuras para a Alemanha. A população mostra-se radiante com a presença de oficiais alemães.

– Fui ontem procurado pelo Alcaide de Sevilha que veio pedir-me para saber se em Lisboa haveria possibilidade de adquirir 100 toneladas de batatas e 500 T. de arroz e ainda para o informar sobre os preços destes generos (que estão faltando em Sevilha) postos no porto de Lisboa ou em Vila Real de S.to António. Fiz telefonicamente a pergunta para Lisboa. pedi as informações e mandei comunicar ao capitão Lourenço da Policia Internacional que tinha pedido estas informações e qual o fim. Hesitei em fazer isto mas decidi-me depois dada a minha situação reservada e porque o Consul naturalmente não pode meter-se nisto.

– Parecia-me muito útil a presença de um observador militar junto do General Franco. O que tenho visto e observado nas operações militares a que tenho assistido é por vezes tão extraordinário e tão significativo que julgo o momento excepcional para uma observação que dificilmente nos seria dada noutras circunstancias. Agora que se está a olhar a serio para as nossas causas militares creio que nos interessa enormemente uma avaliação das possibilidades militares de Espanha. A minha situação não me permite ir mais alem, sem uma credencial do Ministério da Guerra. A qualidade de director da Emissora Nacional fica neste caso muito aquém da qualidade militar que seria indispensável demonstrar para ter junto do Q. G de Franco a situação que conviria a uma boa observação. Estou convencido que esse observador (uma espécie de adido militar) levaria daqui informações precisas e, sob certo pontos de vista, talvez surpreendentes.

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A confusão politica de amanhã continua a desenhar-se cada vez melhor. Perante a chegada de Franco, discutem-se já questões de mando entre os chefes. Para se comporem as cousas, por agora, não haverá um chefe do movimento – isto é: um chefe dos chefes – mas sim varios em funções independentes (como eles dizem) apeasr de eu não compreender como essa independência possa existir. Mola será o comandante das forças que sitiam Madrid; Queipo de Llano o comandante da Divisão da Andaluzia; Franco o Comandante em Chefe das Forças Militares.

Franco é o menos graduado dos generais mas é o mais prestigioso e o mais sabedor. Julga-se evitar conflitos dando a cada um titulos trabalhosamente imaginados e afirmando a independência das suas funções.

Entretanto, embora todos clamem contra os políticos profissionais e digam que a nova Espanha tem que se organizar sem eles – os partidos começam a formar-se e a diferenciar-se. Estou a lembrar-me dos grupos políticos de 1926 e 1927 entre nós: o grupo Vicente de Freitas; o grupo Raul Esteves; o grupo Filomeno etc, etc – todas essas cousas mortas para nós e que rebentam agora aqui como uma fogagem de verão em epiderme mal cuidada.

Simplesmente aqui a questão monárquica assumirá uma importância maior: já aparecem nalguns automóveis pequenas bandeira monárquicas e nas janelas veem-se senhoras costurando [espectacularmente?] na bandeira bicolor da Espanha monárquica.

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O numero oficial de fuzilamentos no sul vai em 30.000. não me repugna acredita-lo em face do que vi.

Dizem que em toda a Espanha atinge já 80.000, só os realizados pelas forças do Exercito.

Apezar disto os focos comunistas que ainda existem não desarmam e resistem tenazmente.

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Parece-me muito interessante ir preparando desde já em Portugal uma serie de conferências para as classes trabalhadoras sobre a aventura comunista em Espanha, orientadas no sentido de demonstrar que são realmente as classes trabalhadoras as mais perseguidas e sacrificadas. Tenho coligido copiosos e interessantíssimos elementos que julgo produzirão grande impressão.

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A luta das estações de radio está perdendo um pouco do interesse inicial pois todas abusaram das noticias falsas. Em tudo o que se houve durante o dia há 80% de mentiras e boatos sem o menor fundamento.

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A situação geral é a seguinte:

Em Madrid as forças do general Mola empenham-se dia a dia em assegurar as novas posições com o intuito de tomarem a cidade antes da concentração de todas as colunas em volta de Madrid. Tratam apenas de melhorar posições estratégicas.

No Sul: estão a caminho de Madrid as colunas Ascencio e Castejon, que vão ocupando as regiões do itinerário numa faixa de 60 quilometros; desembarcaram as ultimas forças do Tércio que se dirigem também a Madrid; o general Franco assume a chefia militar das operações. No resto da Espanha ocupada: pequenas operações locais de extinção dos focos comunistas, isto é: operações de policia.

Esta pois a confirmar-se a minha previsão: nada haverá de importante, capaz de modificar a fisionomia das cousas atuais, antes de oito ou dez dias a não ser que Madrid imprevista e improvavelmente se renda.

– Devo aclarar que a informação que dei sobre subsistência não traduz uma falta absoluta destes géneros. Apenas começa a notar-se escassez e portanto a sentir-se a necessidade de reserva destes géneros.

Com os meus cumprimentos para S. Exª S. Presidente do Conselho e para V. Ex.a creia-me

M.to At. Ve. Obr .

Galvão

Sevilha, 9 de Agosto

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 9

Ex.a Sr. Leal Marques

Junto mais um pequeno relatório:

– Chegaram a Tablada (campo de aviação) cincoenta aviões alemães adquiridos pelos revoltosos. A superioridade com que ficam em materia de aviação é esmagadora. Os aviadores dizem que o seu objectivo imediato é a destruição dos aviões de Madrid, para impedirem a fuga dos dirigentes. Não se pensa senão em liquida-los. Ouvem-se ameaças por toda a parte – e o certo é que elas se cumprem sempre que é possível.

Hoje foram fusilados em Sevilha 72 homens – e entre eles, advogados, médicos, jornalistas e militares das esquerdas. Os julgamentos foram sumarissimos. As execuções ou se realizam de manhã no cemitério [ou?] em ruas dos [bairros co[n]centricos?]. Neste ultimo caso ficam umas horas em exposição para exemplo.

As atrocidades dos comunistas são horríveis – mas a repressão corresponde-lhes inteiramente.

– Falei hoje com o General Franco durante uma hora. Está preparando as cousas para o ataque decisivo sobre Madrid. De Marrocos já vieram quase todas as tropas do Tércio. O objectivo é tomar Madrid com o mínimo de prejuízo para a cidade e para a população civil.

Falou longamente do seu programa que segue de perto o das ditaduras europeiasas, sem nada mais de original como é natural e afirmou que se inspirava nos principios corporativos do Estado Novo português.

Embora m’o não confessasse percebi nitidamente que é um monarquico que dificilmente transige com o regime republicano. Mas percebe-se igualmente que é acima de tudo um militar a quem só teem interessado as questões militares.

Claro e preciso – quasi eloquente – quando fala das suas operações, é confuso e hesitante quando se refere ao seu pensamento politico. Dá-me a impressão de que fala sobre leituras feitas á pressa e mal digeridas.

Fiquei tambem com a impressão de que as operações dirigidas por ele ganharão em poder militar e em organização. O proprio quartel general, que instalou num magnifico palacio, dá impressão de ordem e eficiencia – ao contrario do Q.G. de Llano, que parece um formigueiro onde toda a gente entra e sai como e quando quer.

– As minhas previsões sobre a marcha geral dos acontecimentos teem-se cumprido. Estou convencido que se cumprirão até ao fim. Hoje apenas tem importancia real a concentração das forças sobre Madrid e a tomada da cidade. Tudo o mais serve apenas para manter o moral das Tropas e das populações e para dar assunto às estações de rádio.

De resto tudo é lento, infinitamente lento – e sem razão para ser tão lento. Há cousas que quer sob o ponto de vista militar, quer sob o ponto de vista politico são incompreensiveis – e entre elas a falta de espirito ofensivo de certas colunas com todas as condições militares de progredirem rápidamente.

Repito: Parecia-me muito interessante a presença de um observador militar português. Não posso escrever tudo quanto a este respeito tenho para dizer e creio que não tenho para dizer tudo quanto poderia se a minha situação me permitisse mais profundidade de observação. Tenho todavia coligido todos os elementos para prestar verbalmente uma informação mais completa.

Agora tenho mais liberdade de movimentos pois já estou completamente curado do ferimento que recebi em Llerena. A ferida está cicatrizada e a infeção cedeu. Hoje devo já assistir ás operações junto de Málaga – simples operações de policia: expurgatorias como aqui lhe chamam.

Com os meus cumprimentos para S. Ex.a o Presidente do Conselho e para V. Ex.a [subscrevo-me?],

M.to At. V. Obr.

Galvão

P.S. Peço a V. Ex.a para mandar fornecer ao Diário da Manhã todas as noticias destes relatórios que não forem inconvenientes para publicação.

Sevilha, 13 de Agosto

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 13

Ex.a S. Leal Marques

Junto mais um pequeno relatório.

Com os meus cumprimentos para S. Ex.a o Presidente do Conselho e para V. Ex.a subscrevo-me

M.to At V. Obr.

Galvão

Falei hoje com o General Franco que me deu noticias acerca de Badajoz. Disse que esperava para hoje a queda da cidade e explicou que a razão da demora está no facto dos sitiantes pretenderem evitar a todo o custo a destruição da cidade e o massacre da população civil indefesa. Os bombardeamentos tem incidido apenas sobre a fortaleza e a praça de touros, onde as informações dizem que os comunistas se concentravam.

Teem sido interceptados radios entre o governo de Madrid e os defensores de Badajoz, pelos quais se vé que aquele pretende prolongar quanto possivel a resistencia respondendo ás aflitivas perguntas destes, que tem a vitoria assegurada, que domina em toda parte e que o Exercito está fugindo perante a repressão comunista.

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Ao auxilio prestado pela Alemanha e Italia aos revoltosos, está correspondendo o auxilio prestado pela França a Madrid. A neutralidade é assim uma palavra para animar o jogo de chancelarias sem a menor correspondencia de factos. Esta luta de potencias dentro da Hespanha está, juntamente com outros factores que já tenho referido, prolongando a Guerra Civil e promovendo uma corrida de armamentos cada vez mais intensa.

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Na conversa que tive com o general Franco, disse-lhe o pouco que sabia da atitude das potencias perante o caso hespanhol e sugeri a vantagem que possivelmente existe para o governo militar em fazer larga e clara publicidade, pela fotografia, pelo cinema e pela imprensa, na Inglaterra sobre as atrocidades cometidas pelos comunistas. Julgo que a Inglaterra não está muito convencida da gravidade do caso hespanhol e que uma ação sobre a opinião publica inglesa, seria favoravel aos revoltosos.

O General mostrou-se interessadissimo pela ideia que, disse, iria pôr imediatamente em pratica. As minhas profecias sobre os acontecimentos confirmam-se. Apenas devo corregir o seguinte. Disse crêr que a tomada de Madrid não realizaria antes do fim do mes.

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Os aparelhos trimotores que honrem realizaram sobre Sevilha vôos de experiência levavam ainda no leme a cruz nazi.

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Os comunistas presos na tomada de Antequera, declararam que resistiam porque contavam com vários elementos de êxito entre os quais um levantamento comunista em Portugal.

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O que referi sobre o perigo dum equilíbrio de armamentos, confirma-se. Ao auxilio prestado pela Alemanha e pela Itália ao Exercito, está correspondendo o auxilio cada vez mais intenso prestado pela França ao governo de Madrid. Em todo o caso, mantém-se ainda depois da chegada dos últimos aviões italianos a superioridade dos revoltosos em aviação.

O auxilio da França a Madrid preocupa visivelmente os dirigentes revoltosos, apesar da sua superioridade esmagadora em numero e qualidade de tropas.

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Continuo a observar a mesma lentidão por vezes inexplicável e nitidamente contrario a certos objectivos militares que desde o principio tenho notado nas marchas e operações das colunas revoltosas.

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Fala-se aqui com geral agrado dum artigo do “Século” sobre a atitude de Portugal. Não conheço esse artigo.

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Sevilha 13

Galvão

Sevilha, 17 de Agosto

TRANSCRIÇÃO

(Provisória e com uma primeira correcção, mais ainda não anotada.)

Sevilha 17 Agosto

Ex.a Sr. Leal Marques

Junto envio mais um relatório sobre o que tenho podido observar em Espanha.

Com os meus cumprimentos para S. Ex.a o Presidente do Conselho e para V. Ex.a  subscrevo-me

M.to At. V. Obr.

Henrique Galvão

As acções militares na tomada de Badajoz e Mérida, confirmam em absoluto tudo quando tenho referido acerca do espírito de indecisão do comandos. Não existe uma razão militar aceitável para a lentidão com que as operações decorrem. As colunas são dotadas de magníficos elementos de mobilidade e dispõem de material magnifico. Os seus trens de munições são abundantissimos.

As razões invocadas para justificar as demoras, tais como desejo de poupar as cidades e as populações só quem não viu o que se passa as pode aceitar. Têm que tomar-se como razões politicas para o exterior e nada mais. Na pratica as cidades são destruídas da mesma forma e as populações sacrificadas – talvez mais (decerto mais) do que se as operações decorressem com a decisão própria das operações militares em casos análogos ao presente.

Tenho verificado que com muito menos elementos não me seria dificil nem complicado agir mais eficazmente em muito menos tempo.

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Causou muito bõa impressão a nota do Governo portugues que os jornais de hoje transcreveram, embora se manifeste claramente que se desejaria muito mais.

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Hoje realizou-se no hotel Madrid um almoço oferecido pelos oficiais españhões à oficialidade do cruzador italiano “Antonio da Noli” que veio a Sevilha. Assistiram os Generais Queipo de Llano (que presidiu) Millan Astray, o comandante do cruzador e oficiais, o consul de Italia, o alcaide de Sevilha e numeroros oficiais espanhões. Como o banquete se realizou na sala de jantar do hotel Madrid pude assistir, sentado numa mesa proxima.

Embora se pretendesse guardar fragilmente as aparencias apresentando o banquete como uma manifestação de solidariedade entre espanhoes e italianos, o que é certo é que a publicidade que se lhe deu, a presença dos generais e dos consules e, sobretudo os discursos pronunciados, constituiram um verdadeiro reconhecimento formal e enstusiastico por parte da Italia.

Vou transcrever as notas que tomei sobre os discursos pronunciados:

Falou primeiro o general Millan Astray. Discurso inflamado de legionario (um desses discursos que em Portugal seriam impossiveis sem cobrirem o orador de ridiculo). Oratoria empoladissima sobre a amizade entre a Italia e a Espanha, elogio da situação politica italiana e do Duce e finalmente esta frase que apanhei inteira, dirigida ao comandante do cruzador: “Dile ao Duce que Espanha se batera sola porque no tiene miedo de nadie pero oye bien Italia querida, nuestra hermana, Espanã nunca, nunca olvidara tus palabras y tu ofrecimento. En este momento culminante da la Historia del Mundo, en que España lucha por la civilizacion e por la humanidad, España tendra siempre presente este gesto tuyo.”

Falou em seguida o comandante do cruzador italiano, mais sobriamente, mas que todavia disse da alegria da Itália pela vitória do Exercito Espanhol sobre as hordas marxistas. Embora mais sóbrio o discurso foi bastante lírico e provocou quentes manifestações a que se associaram os hospedes que comiam noutras mesas (franceses, ingleses e italianos).

Depois falou o general Queipo de Llano que principiou por dizer que usava da palavra a pedido do consul de Italia “… Hablando aqui, pago la deuda que he contraido al recebiros”.

Elogiou a Italia. Referencias ao momento historico que a Espanha está atravessando. “Durante este momento, Espanha contrajo lazos de amistad entre la hermana Italia e la hermana Portugal, lazos que nunca mais se podem quebrar. “ Outra frase: “Hay de facto divorcios como acontecio varias vezes entre Portugal e España, pero quando existe lealtad y corazon estos lazos nunca se rompen completamente. E imediátamente: “ Francia esta en una situacion especial. Está como estabamos nosotros hasta hace poco tiempo. A Francia le acontecera lo mismo que acontecio a Hespanha en su conflito con la Frente Popular”. Brindes à Italia, ao seu rei, a Mussolini (de que faz um elogio caloroso) e a Portugal.

Entusiasmo enorme. Os assistentes cantaram a Gioveneza. O general Queipo de Llano levantou-se nesta altura e veio à mesa onde eu estava com alguns portugueses, oferecer-nos champagne e dizer algumas palavras amáveis para nós. Entre as frases que pronunciou: “…Quando permitem os senhores que lhes façamos uma festa como esta?”

Durante todo o dia e noite os marinheiros do cruzador foram passeados em autobus por Sevilha entregando-se a grandes manifestações. Os carros andavam apinhados de marinheiros que gritavam os seus vivas a Espanha, seguidos por multidões que vitoriavam Itália.

A tarde conversei com o alcaide, ainda no hotel Madrid. E o alcaide que ainda há dias me falava entusiasticamente de Salazar e da formula portuguesa como sendo a única que conviria a Hespanha – mostra-se hoje deslumbrado com a formula italiana, defendendo-a como sendo aquela que mais convem à questão social hespanhola.

É claro que o alcaide não conhece profundamente nem uma nem outra para poder ter sobre qualquer delas mais do que uma impressão. O seu estado de espirito reflecte a agradavel impressão do almoço com os italianos e, certamente, a catequese do consul. Desejaria ter conversado com ele mais demoradamente, mas fomos interrompidos. Todavia espero ainda dizer-lhe muitas coisas que ele ignora a nosso respeito.

Manifestou tambem o desejo de ver um barco portuges em Sevilha, falando-me da impressão que isso causaria, com um grande entusiasmo.

O alcaide de Sevilha é pessoa considerada e que terá decerto um papel de alto relevo na politica espanhola. É antigo oficial da marinha e filho do actual general e Governador de Cadiz. Não o julgo uma pessoa muito inteligente mas é decerto pessoa muito seria e muito estimada.

Diz-se que o Governo português, entregou aos ocupadores de Badajoz, os comunistas que fugiram para Portugal. Essa atitude tem sido enaltecida.

*

NOTA: os únicos materiais do ARQUIVO que alguma vez saíram permanentemente para outro repositório foi um conjunto de fotografias que foram publicadas nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO relativas à entrada das tropas sublevadas na localidade de Llerena, seguida de prisões e fuzilamentos em massa.  As fotos eram as únicas conhecidas dos fuzilamentos e havia dúvidas sobre a localização dos  sítios onde havia as covas colectivas. Após contactos com a municipalidade de Llerena, entendi que não bastava enviar as reproduções das fotos, mas que se justificava oferece-las ao arquivo histórico da cidade. Os acontecimentos, de que elas eram o único testemunhos visual, permitindo inclusive identificar alguns dos fuzilados, eram tão cruciais para a cidade que me pareceu mais que justificada a oferta. Um dos responsáveis do arquivo escreveu um estudo global sobre essas fotos (de que reproduzo duas)  de autoria de Francisco J. Mateus Ascacibar, intitulado, “Nuevas imágines de los episodios del 5 de Agosto de 1936. rescate de un fondo fotográfico para nuestro patrimonio histórico”, em La Revista de Las Festas Mayores Patronales, Llerena, Agosto 2007.

As cartas de Henrique Galvão acrescentam outro testemunho dos acontecimentos em Llerena, que vou igualmente comunicar aos autarcas e investigadores da cidade.

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