ESPÓLIO DO CÓNEGO SEBASTIÃO JOSÉ ALVES (1890)

Cónego Sebastião José Alves foi Padre missionário em Angola e Moçambique no final do século XIX e príncipio do século XX. Teve vários cargos na Igreja colonial, em Angola, tendo sido Cónego da Sé de Luanda, director da Missão de S.Salvador do Congo, e da Missão de Novo Redondo (actual Sumbe). Em Moçambique, foi Governador da Prelazia.

(Oferta de António Baltazar Lourenço)

 

(todos os documentos transcritos mantém a ortografia origial)

 

DOCUMENTOS ADMINISTRATIVOS

 

28-12-1898 N.º 1

Sebastião José Pereira, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Epiphania e Prelado de Moçambique, do Conselho de Sua Magestade Fidelissima, etc.

Aos que a presente Provisão virem saúde, paz e benção em Nosso Senhor Jesus Christo.

Fazemos saber que, sendo da maxima conveniência que as missões sejam visitadas frequentemente, e tendo Nós reconhecido a quasi impossibilidade de o fazermos pessoalmente, por causa da grande extensão territorial desta nossa Prelarzia e confiando que o Muito Reverendo Conego Sebastião José Alves, Parocho encommendado da freguezia de Nossa Senhora da Conceição de Lourenço Marques, poderá supprir as Nossas vezes com aquella diligencia e cuidado que convém ao serviço de Deus e bem das almas confiadas à Nossa solicitude e vigilância pastoral; Houvemos por bem de o nomear, por tempo illimitado e emquanto não mandarmos o contrario, Visitador Nosso delegado para as Missões do Districto de Lourenço Marques, já existentes e que de futuro venham a estabelecer-se por determinação Nossa, podendo visitá-las quando o julgar necessário, determinar nos serviços das mesmas as alterações que as circumstancias aconselharem e exercer toda a sua auctoridade como Nosso delegado, devendo corresponder-se directamente Comnosco ou com o Nosso representante, sollicitar das auctoridades locaes quaesquer providencias ou benefícios que julgar convenientes, informando-Nos periodicamente ou em qualquer occasião sobre todos os assumptos e andamento das referidas missões com minuciosidade e escrupulo.

E para seu titulo lhe mandamos passar a presente, que será registada na Camara Ecclesiastica. Dada e passada no Paço Episcopal em Moçambique, sob o Nosso signal e sello das Nossas Armas, aos vinte e oito de Dezembro de mil oito centos noventa e oito.

Eu Padre Affonso Pereira, Secretario da Prelazia, a escrevi e subscrevo.

Sebastião, Bispo de Epiphania, Prelado de Moçambique


Governo Ecclesiastico de Moçambique

Portaria N.º 38

Tendo resolvido ausentar-Nos d’esta Capital, afim de fazer visita pastoral às parochias e missões do sul da provincia; — Houvemos por bem encarregar o Nosso Vigario Geral, Reverendissimo Conego Sebastião José Alves, de todos os negocios de governo e administração ecclesiastica, durante a Nossa ausencia, e lhe transmittimos e conferimos todos os poderes ordinarios e extraordinarios, que lhe podemos communicar como Nosso immediato representante no governo ecclesiastico, reservando a Nós a imposição de censuras e penas canonicas bem como a resolução dos assumptos mais graves, pois em qualquer parte em que Nos acharmos daremos o possivel expediente aos negocios que Nos forem presentes e exerceremos a superior administração ecclesiastica. —

As auctoridades e mais pessoas a quem o conhecimento d’esta competir assim o hajam entendido. —

Paço Episcopal em Moçambique, 9 de Setembro de 1898.

Sebastião, Bispo de Epiphania, Prelado de Moçambique


DIÁRIOS

1- Curriculo

No anno de 1878 fiz exame de instrucção primaria em Castello Branco, fui approvado com 11 valores.

Fui para o seminario das missões no dia 15 de janeiro de 1881.

No anno de 1882 fiz exame de francez 1.º e 2.º anno com 13 valores e de latim com 18 valores.

No anno de 1883 fiz exame de francez com 14 valores e de latinidade 14 valores.

No anno de 1884 fiz exame de introducção e frequencia de primeiro anno de philosophia.

No anno de 1885 fiz exame de philosophia com 3.º accessit e de rhetorica com distincção.

No anno de 1886 fiz exame de arithmetica, algebra etc. com 3.º accessit e de historia universal com 1.º premio.

No anno de 1887 fiz exame de theologia 1.º anno, dogma geral e historia ecclesiastica com 1.º accessit.

No anno de 1888 fiz exames de 2.º anno de theologia, dogma especial e moral com 2.º accessit, e de 3.º anno de theologia sacramental e direito canonico com distincção, 15 valores.

No anno de 1886 fiz exame de desenho, primeiro anno, e no anno de 1887 frequentei a aula de mechanica.

Tomei os 4 primeiros ordens menores em Chellas, no anno de 1884.

 

2-  Viagem

De Novo Redondo a Benguella Velha

Por mar são trinta e seis milhas; por terra faz-se viagem n’um dia de Novo Redondo ao povo da Gimba 5 h.

Da Gimba ao rio Cuivo 1 h.

Do Cuivo a Benguella Velha 3 h.

Fiz esta viagem por mar a 18/11/92 e por terra a 26/11/92.

De Novo Redondo ao Puay

Gastam-se 5 h. em tipóia.

Fiz esta viagem a 29 de maio e voltei a 2 de junho de 93.

De Novo Redondo ao Egipto

No dia 18 de setembro de 93 saí de Novo Redondo a fim de ir visitar o concelho do Egipto pertencente à minha jurisdicção.

Cheguei ao rio Cuibal às 4 h. e a Equicombo às 4½ h. da tarde e aqui pernoitei.

Saí de Equicombo no dia 19 pela 1 h. da tarde e cheguei à libata Equissenga Pequena às 5 h. e aqui pernoitei; à noite estive ensinando e evangelisando.

No dia 20 às 5 h. da manhã segui e encontrei pela primeira vez, depois de Equicombo, água n’um sítio formado marginado por grandes rochedos e despenhadeiros; aqui os carregadores preveniam-me de que se não encontraria mais água até ao rio Tapado, seguio-se os carregadores tomaram o caminho do interior deixando o do litoral e por isso evitam de passar na Equissenga Grande.

Pelas 9 horas estava nas alturas da Equissenga Grande; parei, almocei; às 10 h. fiz-me ao caminho; ao meio-dia passei ao próximo de dois grandes buracos de leões n’uns rochedos; os carregadores procuraram água mas não encontraram; segui o caminho e às 3½ h. cheguei ao rio Tapado (nome bem applicado pois que a embocadura é tapada por areia).

Parei ½ h.; os carregadores negaram-se a seguir n’este dia e eu segui só às 4 h. com o meu sacristão; depois de me verem subir a maior parte seguiram-me mas 1 delle bebeu-me todo o vinho; pouco adiante fez-se-me noite, esperei os carregadores; faltaram dois que ficaram bebedos; só chegaram ao Egipto no dia seguinte.

Cheguei ao Egipto no dia 20 às 10 h. da noite; ninguém me appareceu para passar o rio e por isso pernoitei n’uma barraca e só no dia 21 pelas 7½ h. cheguei à residencia do Chefe.

Resumo

De Novo Redondo a Equicombo — 3½ h.

De Equicombo a Equissenga Pequena — 4 h.

Da Equissenga Pequena às alturas de Equissenga Grande — 3 h.

Das alturas de Equissenga Grande ao rio Tapado — 5 h.

Do rio Tapado ao Egipto — 5 h.

Alves

 

3- Farmacopeia (partes ilegíveis)

 

… missão central (bem dirigida, onde façam tirocínio e donde sejam destacados, segundo as suas aptidões, poucos serão principalmente por lhes faltar unidade de vistas, e desconhecerem os costumes dos indígenas.

Santo Antonio do Zaire, 31 de agosto de 1894.

O chefe da missão
Conego Sebastião José Alves

Nota – Acabo de ler no Boletim Official que à missão de S. Salvador foi tirado 1:000$000 réis, o que obsta à realização dos meus planos de missões.

Conego Alves

 

Apontamentos pharmaceuticos

Nota – Para soldar emprega-se breu primeiro e depois estanho e chumbo muito miúdo.

Para pneumonia

Pó de cantharidas 8 gram.

Farinha de trigo 8 gram.

Vinagre 16 gram.

Este mesmo emplastro encontra-se preparado e n’este caso estende-se a massa do emplastro de cantharidas sobre um bocado de papel e junta-se um bocado de papel e junta-se um bocado de vinagre.

A ferida para curar unta-se com unguento amarello misturado com gema d’ovo estendida sobre papel e applicada sobre a ferida.

Purgantes

Pilulas [Collonelanos?] 10 a 12 grãos.

Pilulas Antibiliosas

[Collonelanos?] 10 grãos e raiz de [ileg.]

Podophyllina 1 grão; misturam-se para fazer 12 pilulas pequenas.

Para diarrhia

Subnitrato de bismuto 1 a 2 gram.

Também se usa o chlorato de potassa.

Quina.

Maná.

Para feridas

Pomada camphorada: camphora 3 gram., cera branca 10 gram., banha [ileg.].

Pomada salicylica: acido salicylico 3 gram., alcool 6 gram., banha 30 gram.

Pomada de iodofórmio: iodofórmio 8 gram., banha 100 gram.

Para dores no ventre de origem nervosa (internamente)

Tintura de ópio 8 gram.

Brometo de potassio 1 gram.

Agua 100 gr.

Para ataques epilépticos

Brometo de potassio 2 gram.

Agua 100 gram.

Para ferimentos ligeiros

Externamente: acetato de chumbo liquido 5 gram.

Agua 100.

Para rheumatismo (internamente)

Iodureto de potassio 2 gram.

Agua 100.

(Externamente)

Tintura de iodo applicada com um pennel ou palhinha na parte doída.

Camphora dissolvida em azeite para fricções.

Para malta

Pomada mercurial com espermacete [ileg.]

Para tosse

Pilulas de massa expectorante ½ grama cada uma.

Para febre

Quinino 1 gram.

Acido sulfurico 20 gotas.

Agua 100 gram.

Para expectorar

Kermes mineral 2 grãos.

Carbonato de amonia 2 grãos.

Goma arabica; tudo dissolvido em agua e tomado às colheres.

Para baixar a temperatura

Pilulas de acido salicylico de 1 gram.

Para sarna

Pomada de Helmerich.

Enxofre em pó 15 gram.

Oleo de amendoas 10 gram.

Banha 70 gram.

Para desenteria

Pó Dover 2,5 a 5 centigram.

Para dores no figado

Nitrato de potassa 1 gram.

Tintura de digitalis 10 gotas.

Nos casos antigos pode ser retenção de bilis; neste caso devem-se applicar purgantes.

Para morphéa e feridas apestosas

Iodureto de potassa 2 gram.

Agua 100.

Para aphthas e outras feridas na bocca

Mel rosado, borato de soda 2 gram.

Uma vez feito pode servir o seguinte:

Mel 30 gram.

Alumen [ileg.]

 


ARTIGOS DE SEBASTIÃO JOSÉ ALVES

 

POSSESSÕES PORTUGUEZAS

Novo Redondo (Africa occidental), 22 d’outubro

Só pode oppôr-se á admissão das Ordens religiosas quem não conhecer o atrazo moral, em que está a Africa, ou não quizer a civilisação e o progresso de nossas colonias. Tenho percorrido um pouco d’Africa, e cada viagem, que faço, me confirma esta verdade. Só n’este vasto concelho de Novo Redondo, onde hoje marcha a passos gigantes a industria e o commercio, para o desenvolvimento da religião e da civilisação seriam precisos quinze a vinte padres para abrir escolas e missões, e em breve haveria necessidade de mais pelo avançamento para o interior illimitado; mas triste é o estado em que tudo estaciona: ha apenas um parocho missionario e professor na sede do concelho sem egreja nem escola. Não ha esperanças de mais sacerdotes para este territorio tão vasto, tendo ainda o annexo a esta freguezia, d’onde se poderia fazer diocese, um outro concelho, que nunca gosou a felicidade de ter um parocho.

Os poucos resultados obtidos pelos esforços do missionario n’estas condições, são similhantes aos ramos das arvores nas florestas, que por falta da acção constante dos raios solares estiolam e morrem. E’ indispensavel ao menos um missionario, mas quantas vezes e por quanto tempo tem estado este vasto territorio sem nenhum! N’uma visita que fiz em missão a Benguella Velha, soube que desde oitenta e nove não ia alli um padre e o mesmo me aconteceu no concelho do Egypto, d’onde ha pouco regressei, apesar d’estes pontos terem muitos europeus negociantes.

Deploravel é o atrazo moral d’estes pobres gentios, que sem esperança de instrucção, que os oriente, giram deslisando por tudo a que os conduz a natureza no estado selvagem.

Pregando de passagem n’uma vasta libata gentilica, procurei convencer a que deviam baptisar as creanças, attrahil-os pela doutrina nova, mas respondiam que se não baptisaram porque assim tinham vivido os seus paes e elles assim queriam viver tambem, sendo baptisados não podiam comer carne de cachorros e ratos e por isso não a acceitavam. Devido á rapidez da minha passagem não consegui baptisal-os, mas consegui attrahil-os; quando entrei na libata todas as crianças fugiam de mim; n’esse mesmo dia, pregando lhes, não me deixaram mais, acompanhavam-me por toda a libata e para á noite descansar foi preciso mandal-os retirar. O interior d’este concelho é muito saudavel e fertil, e por isso as missões poderiam desenvolver-se rapidamente. Mas sem as ordens religiosas donde hão de vir esses incançaveis obreiros da civilisação? Do Sernache não, porque, se não dá para prover de parochos nem a terça parte dos concelhos, como é que ha de dar para missões?

Até breve. — (Do nosso corresp., S. J. Alves.)

 


FOTOGRAFIAS

1

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3- Rei do Congo falando ao povo.

4

5 – Casal cristão.

1 Comment

  1. Interessante, em finais do sec xix principos do século xx, o estado civilizacional era ainda muito incipiente. Em 1840, estava-se a desbravar, para as indústrias e comércio do Portugal Ibérico, o que havia de novo. Sei-o pelo que sei da minha família. Toda a história subsequente dos novos países africanos PALOPS, tiveram o “arranque” dos brancos, com todos os seus aspectos: negativos e positivos, mas foi a massa crítica que daí veio que deu inexoravelmente origem à sua libertação. Ainda bem.

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